Declaração

Nada dos clichês habituais. Nada de lirismo tolo.
Combinamos assim: eu te peço o que quero, você me dá o que pode.
E vice-versa…
Apenas falamos o que sentimos. Sem pacote para presente, sem enfeites.
Se tenho medo, você me envolve em seu abraço.
Se estiver inseguro, te recordo que sou aquela que escolheu.
Do jeitinho que sou!

Quando a saudade apertar…
Te ligo, te chamo, GRITO! Sem vergonha, sem os limites do orgulho.
Se brigar? Bom… saio!
Mas volto depois: com calma, com toda alma!

Não me pergunte nada, não me cobre nem uma libra.
Não estarei ali para tentar te convencer de nada.
Mas estarei ali para te levar ao céu, se você quiser!

Não me diga que não quer o que sei que deseja
E não te direi que te perdoo por acusações infundadas.
Não me fale de juventude ou velhice.
Só quero estar, e exijo que você esteja!

Quando aqui estiver, esteja inteiro.
Se for sair para sempre, tome de volta seus livros.
Leve a chave da porta, me desligue de seu monitor.
Não tente se fazer presente se aqui não estiver
Não faça a vez da compaixão forçada
Não faça com que me sinta um supérfluo.

Hoje estou aqui, feliz e receptiva a você.
Enquanto durar serei sua. Absolutamente sua.
Se não perdurar partirei sem dor ou rancor.
Sinto sua falta agora. E sentirei enquanto você estiver presente.
Peço perdão se falhei e te perdoo por não me dizer onde.
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Acaso no AF 447





Sete crianças mortas, um bebê, um príncipe, um maestro. Recém casados em lua de mel. Um comissário de bordo que veio ao Brasil enterrar o pai. Famílias despedaçadas em questão de poucos minutos. Pensamentos focados num quê de fantástico: um tubo de metal de 130 toneladas voando a uma altitude onde o ar é irrespirável. O Atlântico abaixo de um trem de pouso que nunca desceria. Uma tentativa de pouso forçado que não aconteceria.

Este é o quadro. O triste panorama de uma tragédia. E um prato cheio para as conjecturas da imprensa e a vontade irresistível de se encontrar culpados. Para nós, profissionais da aviação, de ontem ou de hoje, parentes e amigos das vítimas desse mistério trágico, os culpados pouco importam, ao menos por agora. Fica apenas duas perguntas inquietantes: O que aconteceu e por que?

Por mais que saibamos sobre o quanto é seguro viajar de avião, o quanto este maravilhoso invento humano é bem projetado, e por mais que estejamos preparados e bem treinados para a possibilidade de um acidente, muitas vezes não há como fugir e logo, não há como não se chocar com a nossa total incapacidade com o acaso fatal. Uma tragédia no Atlântico em pleno voo de cruzeiro, um evento raríssimo na aviação, marca profundamente pela raridade em si. Mas, para além de ser um acontecimento raro, tornam-se evidentes questões que preferimos ás vezes não ter que pensar: a fragilidade da vida humana é uma delas.

Contraditórios, nós, seres humanos, podemos decidir nunca mais entrar em um avião. Mas fumamos, bebemos, ingerimos os piores tipos de alimentos, nos rendemos ao ócio, ao estresse, nos drogamos. Marchamos a passos largos em um caminho para a morte. Fraqueza ou apenas uma escolha? Não sei! O fato é que nossas vidas não nos são tiradas ao acaso. Escolhemos caminhar no rumo que queremos. Sabemos das consequências de nossas decisões. Não é o caso de nossos entes queridos e amigos em algum lugar do Atlântico. Talvez seja essa a razão para tamanho choque. Por que tragédias como essas acontecem? Por que o acaso ainda insiste em resistir a idéia tão disseminada do livre arbítrio e da livre escolha. E em que limite se encontra a fatalidade, se é que ela não é fim em si mesma.

Costumo dizer que é simples pensar na vida humana tirada ao acaso, na medida em que se pensa que ela pode ser apenas resultado de uma evolução, também na casualidade. Mas é difícil compreender a vida humana como uma criação divina perfeita, cuidadosa, tendo em vista os horrores aos quais ela está submetida. Como explicar, só para exemplificar, a história de recém casados, com planos de vida interrompidos abruptamente, por um problema qualquer em um aparato voador criado por um outro homem. Será que podemos dizer simplesmente: o inventor teve a escolha de criar um avião. Nós temos a escolha de desafiar as leis da gravidade para entrar num destes. E aí a inferência se resolve: tudo se resume à escolha. E está aí um resultado lógico. Ou podemos pensar em um resultado de fé nas “explicações” religiosas para o fato: Tenha fé, por pior que pareça a situação. Acredite que Deus tem suas razões - que devem permanecer desconhecidas - para a morte repentina e inexplicável das pessoas que amamos. E assim colocamos tudo, de novo, nas mãos de Deus.

Esperamos então que Ele nos acompanhe e nos guarde. Que Ele exista e resista em nós. Que possa permanecer anterior a todas nossas dúvidas. Ou ao menos que permita a estes reles mortais descobrir, o que houve de fato.

Texto: Luciane Trevisan Leal


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A Festa Farra Brasil e o Povo da Comiseração



O Brasil é de fato o país da farra. Ás vezes penso ser a farra de poucos. Mas acho que se considerar os fatos recentes, posso concluir por uma farra de muitos. Vejamos os tipos que participam da Festa Farra Brasil.
Todos são bem vindos. Vê-se de tudo: gente comedida e espalhafatosa, gente que se importa com o juízo do outro e gente que repudia a opinião alheia. Gente no anonimato e de categoria pública. Jornalistas, juízes, políticos, “empresários religiosos” e finalmente, o povo brasileiro. Gente! Onde tem gente tem muita variedade!
Cada um vem para festa como pode. Com o que lhe é de direito (de direito consentido, melhor me colocando) ou como lhe convém. Aqueles do direito consentido trazem a família toda. De primeira classe e bebendo proseco. Estes pagam sua viagem com o dinheiro público. Os mais modestos, vem de transporte público de massa (ou que amassa). Estes últimos pagam sua locomoção do próprio bolso. São aqueles que vem para festa como lhe convém. Os miseráveis, os pobrezinhos com poucas oportunidades, aqueles que não merecem os líderes que eles próprios elegem.
Na Festa Farra Brasil o dinheiro público promove belos divertimentos e ostentações. Tem castelo, apartamentos funcionais para parentes de políticos, cartões corporativos com gastos astronômicos, verbas indenizatórias com as quais se compra comida para cachorros, fraudas, móveis para a casa e até filmes impróprios para menores. Na Festa Farra Brasil come-se pizza, muita pizza! E para os mais “lights” frutas, laranjas principalmente.
Mas normalmente o melhor da festa vem depois. Os comentários são de peculiar proveito. Vejam vocês, por exemplo, o senhor Sérgio Moraes (PTB – RS e relator do Conselho de ética): “Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Nós nos reelegemos mesmo assim”. Um homem público que está “se lixando” para a opinião pública. Que maravilha!!! Mas pergunto. Por que o espanto? Ele mesmo, ao final de sua fala, explica: “nós nos reelegemos mesmo assim”.
Parabenizo o senhor Sérgio Moraes pela tamanha sensatez ao esboçar sua opinião. Ele sim é um afortunado. Pode falar em alto e bom som a mais pura verdade. Mal afortunados somos nós, cidadãos brasileiros, os “coitadinhos” que insistem em votar nos mesmos pilantras. Preferimos dizer por aí: burlem o pagamento de seus impostos para não alimentar a corrupção. Preferimos nos corromper já que “se ele pode eu também posso” e nos lixamos para a opinião pública como eles. É mais fácil a ter que exercitar a memória ou se informar um pouquinho mais para não colocar em Brasília essa corja. Preferimos participar da Festa Farra Brasil como nos convém: calados. É melhor, dá menos trabalho. Para não nos tornarmos o pilar para uma mudança, nos tornamos o povo do ressentimento e da comiseração. Temos pena de nós mesmos. E nos resignamos em nossa posição de coitados. É isso aí. Continuemos nos fartando na Festa Farra Brasil.

Texto: Luciane Trevisan Leal

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