Os Indignos da Igreja



Na Igreja Católica, o termo "digno" sempre me incomodou bastante. Para quem já levou isso muito à sério (freqüentadora assídua da Igreja, dos grupos e discussões de teologia e estudos bíblicos), os resultados podem ser nefastos...
Falando deste caso em particular sobre o matrimônio heterossexual e a relação com a “existência digna”, na fala de Bento XVI: A união do homem e da mulher nessa comunidade de amor e de vida que é o casamento constitui o único 'lugar' digno para a chamada à existência de um novo ser humano, que sempre é um presente.
Não me parece haver nenhuma relação entre o matrimônio sacramentado pela a Igreja e um chamado digno à existência. E também me parece contraditória a fala onde se enfatiza que o casamento seja o ÚNICO lugar digno para um nascimento, já que, como considerado pelo próprio Ratzinger na mesma fala: "um novo ser humano é SEMPRE um presente".
Mas bem! Quando Bento XVI fala do “chamado” isso muda tudo. A existência passa mesmo a ser uma questão religiosa.
O meu nascimento e de meus irmãos por exemplo, levando-se em conta esta lógica, foram considerados indignos pela Igreja Católica e por isso mesmo muito distantes de terem o status de “um chamado à existência”. Por mais que minha mãe tenha batizado, crismado e nos encaminhado para a Igreja todos os domingos, ainda assim, ela não tinha permissão para receber a hóstia Sagrada porque vivia em pecado. “Juntou-se” a um homem que a amava, mas era divorciado. O fruto foram quatro filhos do pecado. No compartilhar de uma união com muito amor até a morte de meu pai aos meus 22 anos de idade (sou a filha mais velha de quatro), ouvi minha mãe dizer que não tinha permissão para a comunhão com o corpo de Cristo por ter se unido a um homem divorciado. Para a Igreja, minha pobre mãe é a maior pecadora.
Bem! Nós, nascidos do pecado, estamos todos muito bem, obrigado. Indignos e longe da Igreja Católica.
Claro que ao menos nas grandes capitais católicas/cristãs do mundo, a fase do divórcio como um comportamento execrável e o drama da união sem casamento na Igreja, virgindade e etc, são até bem aceitos. Que bom para nós, destinados ao inferno. Ao menos temos alguma paz neste planeta no tempo que nos resta até a punição eterna. Mas infelizmente, os pobres homossexuais, por exemplo, que queiram adotar um filho e lhes oferecer seu amor e inserção “digna” na sociedade, além de como nós estarem condenados ao fogo do inferno eterno, ainda precisariam penar neste mundo, sofrendo por suas escolhas, à margem de uma dominante filosofia judaico-cristã que insiste não esquecer que a Idade Média é passado e que sua defesa dos fantásticos desígnios de Deus para a humanidade (na outra vida, claro), não colam mais.
Tudo isso é tão burro e vazio de significado que sinceramente acredito que nem o próprio Bento XVI sustente em seu íntimo o que prega. Um homem que detém o nível de educação e a quantidade de leitura que em muito superara os grandes doutores das ciências humanas de nosso tempo, certamente não acredita no próprio discurso. Porém, estamos falando de algo maior que o discurso: o poder conferido pela tradição. É, meus amigos! Estamos falando de política.
O que seria de todos os grupos cristãos mundo a fora, se o Pontífice, a autoridade suprema da primeira e mais tradicional Igreja Cristã não sustentasse as mesmas falácias que desenharam o pensamento Cristão há dois mil anos? Isso vale para todas as ditas Igrejas Cristãs, dissidentes, que não passam de uma extensão piorada das atrocidades contra os valores de tolerância e ética. Valores que custaram vidas ao longo da história do ocidente, numa tentativa exaustiva e bela de construção de uma sociedade mais justa. Para quê perdemos as valiosas vidas que ajudaram a construir nossa história passada e esse lapso de sanidade que conseguimos de tempos em tempos fazer emergir? Para ouvir as mesmas autoridades inquisitivas que sempre perambularam pelo mundo, sabendo de sua pequenez diante do todo cósmico e incompreensível para suas limitadas mentes, mas incapazes de reconhecê-la, por grande amor à vida terrena que tanto criticam. Criam sua regras contra as “coisas do mundo” que adoram.
As “coisas do mundo” tão desprezíveis para os olhos das tantas religiões, não são somente questões morais de cunho sexual e o fazer comportamental “adequado” aos olhos da cultura de nosso tempo. Tem um elemento que parece sobrepor a própria cultura, um elemento básico que dá seus nuances a ela: poder.
As verdades religiosas que vocês todos defendem com tanto empenho, meus amigos, não passam da fusão de micro-estruturas de poder legitimadas ao longo da história, pelas poderosas autoridades que precisam do mundo tanto quanto nós, que necessitam dar significados ao que não compreendem tanto quanto qualquer mortal. Vocês meus amigos, se empenham mais em construir demônios e infernos eternos em sua fantasia contra o mundo que tanto desejam, a reconhecer a realidade: a incapacidade de compreensão totalizante do real e da boa convivência entre as muitas diferenças. Vocês antes de criarem seus deuses, conferem autoridade sobrenatural a qualquer um que lhes dê um sentido. Vocês não querem ser pequenos, querem ser grandes, como as poderosas autoridades que exaltam. E qualquer absurdo será sempre bem vindo! Como este de dizer que o único lugar para o nascimento de uma criança é dentro do casamento sacramentado pela Igreja.
Nunca consegui entender como podem se acreditar humildes por baixo dessa capa de arrogância. Grande coisa o casamento religioso e o disfarce de quem vive infeliz para dar respostas à essa sociedade doente.
Sabem que já tentaram “exorcizar” a casa de um membro de minha família por conta de meus pensamentos? Nada mais justo! O demônio que sou é um incômodo muito bem vindo. Os exime da responsabilidade de olhar o próprio umbigo e deixar a preguiça de lado na hora em que se precisa questionar as respostas prontas e as inúteis barganhas com Deus. Vocês precisam de um demônio, eu entendo. Precisam combater alguém por não terem coragem o suficiente para encarar a falta de lógica da própria existência.
Os filhos indignos de uniões não sacramentadas são assim: demônios encorajados pela sua ignorância. Parabéns!

Texto: Luciane Trevisan Leal

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Testemunho de um Fiel


Eu abusei sexualmente do filho da Maria e o matei. No meu leito de morte, eu acreditei com todas as minhas forças e disse: Eu aceito Jesus. Hoje estou no céu! Meu Deus é misericordioso!
Já a Maria...
Ela não acreditava em nada. Quando violentei e matei seu filho, ela gritava de horror! Pediu-me clemência, me pediu que não o fizesse. Ainda assim eu o fiz!
Maria poderia ter rogado proteção à seu filho. Precisava acreditar e pedir ao mesmo Jesus que eu aceitei, mas ela se negou. Poderia ter orado, ter pago o dízimo, ter lido a bíblia, ter entendido que seu filho morto por mim, à sua frente, era sua maior provação. Ela precisava passar por isso! Mas ela não aceitou. Ela não entendeu que a beleza, o triunfo da felicidade sobre o sofrimento, está na vida eterna prometida após a morte. Ela não entendeu que estamos expiando nossos monstros! Que este mundo é do demônio!
No leito de morte, Maria não aceitou Jesus!
Lamentavelmente, Maria está no inferno!
Ela não me deu um tiro. Poderia tê-lo feito porque tinha uma arma em sua mão. Nem vendo o filho morto, fez o mesmo comigo. Eu tirei a vida do filho dela, e nem assim, pereci em suas mãos! Maria, grande mulher!
Mas Maria pecou, como qualquer pessoa, por toda a vida... Por mais grandiosa mulher, mãe e esposa que tenha sido, nasceu no pecado e morreu no pecado. No leito de sua morte, morte pela tristeza de um filho assassinado por mim, nem mencionou o nome de Jesus. Em seu íntimo ela não aceitou nosso Deus.
Por que ela não aceitou nosso Deus tão misericordioso? Fico me perguntando! Eu aceitei, e estou aqui, no paraíso! Eu matei, fiz as piores atrocidades e meu erro foi perdoado porque aceitei nosso Deus!
O erro de Maria?  Não crer. Este é o erro fatal!
Afinal, Deus tem lá seu orgulho, né?
Essa é a justiça divina!
A justiça divina, perfeita, como a Bíblia nos ensina!

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A Busca pelo Sentido


Existe uma verdade a partir da qual deveríamos nos guiar? Há uma conduta moral acertada, um valor essencial a orientar nossas ações pelo mundo?
A cada tempo no caminhar da existência humana houve uma verdade a orientar a conduta. Nos dizem a todo tempo como somos e como devemos ser. Parece precisar existir na tessitura do espaço tempo que acomoda nossa existência uma verdade fundamental, necessária, um elemento primordial qualquer que propicie uma convivência harmônica em sociedade.
Um mundo sem ordem moral parece sem finalidade e sentido. Mas e se não existir de fato um sentido para o mundo, o que direcionaria ou orientaria nossa conduta? Sem uma orientação, não se trataria então de um mundo sem esperança e niilista. O absurdo de um mundo sem ordem moral é possível?
Estas questões, muito atuais, são ainda questões que repetem estruturas antigas e estão na base dos significados que construímos e de nossa forma de ser e estar no mundo.
Podemos procurar um elemento qualquer que nos ajude a criar os códigos morais de conduta universais que tanto desejamos e que parece mesmo que necessitamos. Mas talvez esteja no resultado da crítica a essa busca, a essência de uma ética natural, forjada na abertura para o mundo que somente a crítica a ele próprio é capaz de criar. Uma crítica à própria racionalidade submersa no tempo que abriga nossa subjetividade. 
O texto aqui redigido tem a intenção de mostrar, resumidamente, como no decorrer da história ocidental sempre houve uma tentativa de essencializar o ser humano, o que parece mais uma saída pela via mais fácil, para se criar um fundamento para existência e sentido para um mundo onde se possa ter esperança, em oposição ao niilismo que insiste aterrorizar.


Nossas Heranças


Os filósofos pré-socráticos encerravam na razão a maneira correta de enxergar a mundo. Somente a razão o explicaria. Mas Platão alerta que essa realidade é uma ilusão, o mundo na verdade é equívoco, sombras (crenças, certezas, preconceitos) que vemos e vivenciamos, aprisionados em uma caverna. A compreensão de como são as coisas, efetivamente, somente é possível fora da Caverna, está em algum lugar que para Platão, é o mundo das idéias, das formas. Somente a saída da caverna apresenta essa realidade que aí sim, orientará, no retorno à caverna, a atitude ética capaz de construir uma ação correta no mundo.
Para o filósofo o mundo das idéias carrega consigo as verdades inspiradoras dos valores que devem guiar nossa existência, valores desconhecidos, cujo papel do filósofo é mostrar o caminho para sua descoberta. O filósofo seria aquele a nos ascender ao conhecimento.
Nesta ilustração há uma separação entre o mundo aparente e o mundo real, onde se considera um processo de elevação em direção ao conhecimento, que carrega em si, o conjunto de valores a serem aplicados no modo de ação correto diante do mundo. Estes elementos de um processo que nos direciona ao conhecimento dos valores adequados eticamente têm total importância no cenário que está por vir, quando acaba se fundindo com a visão de mundo judaico-cristã.
Santo Agostinho faz uma releitura de Platão[1] apontando uma verdade fundamental acessível a todos para a qual devemos voltar à atenção, verdade a orientar nossa ação no mundo. O sentido, a lógica dos valores a serem os legítimos modelos de comportamento não são sabidos por conta de uma ignorância da verdade. A verdade, numa alusão clara ao pensamento platônico, se converte na revelação do mundo espiritual cristão. Uma rede de significação que tem como base de apoio agora a figura humana do Cristo, que ocupa o anterior papel do filósofo como caminho para o conhecimento. Cristo suplanta o mundo aparente do pecado (mundo real), apresentado a moralidade implícita na verdade (mundo das idéias), produzindo assim as ações da verdade revelada e um sentido para a existência.
O homem da modernidade que se entende em oposição aos elementos religiosos da herança medieval, parece representar a mesma estrutura descrita anteriormente, mas refletida agora no mundo do saber científico e das ideologias que vigoram. Neste momento as incertezas se voltam para o sujeito, novo limiar da verdade, quem irá de fato produzir e contribuir para o significado do mundo e da verdade. Na modernidade há uma forte construção de identidade e sentido: um cidadão tem que ser justo, trabalhar, respeitar a lei para contribuir com as ideologias democráticas, de justiça e liberdade, somente assim produzindo os valores adequados a uma sociedade mais igualitária, democrática. Um “novo” velho sentido para o mundo, que as democracias modernas irão absorver.
Estas ideias que parecem repetir fundamentações muito antigas caem na desconfiança na contemporaneidade, alçando ao patamar do desencanto o projeto da modernidade, onde dúvidas transitam no mesmo espaço das ideologias democráticas e de todo o conhecimento científico adquirido. No pós-guerra essas dúvidas ganham força e o mundo contemporâneo começa a se ver à esgueira de pilares construídos no decorrer da história que começam a desmoronar. Justiça, liberdade e democracia? São de fato verdades ou meras possibilidades, muito relativas, de um sujeito que tenta avidamente produzir sentido para sua existência?
Talvez a maior herança da modernidade seja de fato o apelo ao indivíduo, à subjetividade que caminha lado a lado à história. Entender-se como sujeito que pode agir em prol de um mundo melhor, por ser ente que existe porque pensa, porque é, deixa na herança cartesiana um tom quase poético. Nossa racionalidade como prova de existência e todas as possibilidades que essa elevação nos apresenta. Porém pensadores como Shopenhauer e Nietzsche, tidos como filósofos da suspeita[2] desenham um novo arcabouço para o sujeito racional, levando em conta outras facetas de nossa subjetividade. Não seríamos também constituídos de vontade, instintos, além do bem e do mal? Até que ponto somos capazes de lidar com nossos afetos, com os desejos de nosso corpo? Não haveria uma série de coisas ocultas por trás de nossas moralidades com as quais não conseguimos lidar? Será que a genealogia da moral que optamos por seguir os pressupostos, sem questionamentos, é efetivamente a totalidade de nossas vontades?  Caso não seja, não estaríamos assim, falsificando a vida? Sabemos porque fazemos o que fazemos ou somos somente dominados pela lógica de nosso tempo?
A crise da cultura que estas desconfianças provocam, reascendem questões sobre se há de fato uma verdade, pressupostos morais e éticos passíveis de acomodar nossas relações sociais ou mesmo alguma consciência individual do ser. Será mesmo que há alguma finalidade, algum sentido para o mundo que construímos e que nos constitui? Se não há finalidade, como lidar com essa verdade? São as principais questões que hoje nos colocamos.
Mas e se não houverem de fato princípios ou fundamentos, ou mesmo se eles existirem, mas nós não possamos desvendá-los, como prosseguir?

Sofrimento e seu significado

Os gregos encaravam a tragédia da vida com poesia. Nós encaramos a tragédia da vida inventando significados para ela. No decorrer da história ocidental, principalmente, da cultura judaico-cristã, dar sentido ao sofrimento parece a resposta para todas as dúvidas. O sofrimento é penalização de uma verdade que não é compreendida. É quase uma entidade viva a se deparar com o homem e desafiá-lo a escolher o plano de Deus, a dimensão espiritual para além da vida, em contraposição aos desejos do corpo. Uma escolha que re-significa a existência, na possibilidade de existência futura nas promessas do além-vida. E mesmo que não nos voltemos para o viés religioso, o sofrimento é justificado, na escolha pelas causas justas do mundo. E assim inventamos sentido e reafirmamos as mesmas estruturas, sem imaginar a menor possibilidade de um mundo sem finalidade. Porque pensar um mundo sem finalidade é não encontrar justificativa para o sofrimento, o que seria absolutamente insuportável.  
O último homem de Nietzsche é incapaz de criar, amar, desejar, e apenas inventa uma verdade artificial para se enganar a cerca dela. Mas a questão que se coloca é: e se o sentido da vida desse último homem é viver exatamente desta maneira? Será que ele é de fato incapaz de ser diferente, ou somente um covarde a não encarar de frente suas escolhas? Se caso optasse por assumir a totalidade de suas possibilidades, como diria Heidegger, como viver com elas num mundo onde as redes de significados são tecidas por linhas que dificilmente se arrebentam? E mesmo que ele queira pagar o preço: até o preço parece ter sido capitalizado pela ordem do mundo.
Até mesmo o sem sentido do mundo parece estar imerso em uma ordem de sentido que  paira sobre nossas cabeças, tendo como resultado somente uma possibilidade de fato: a dúvida. É somente por intermédio dela que conseguimos formular a crítica necessária capaz de nos tirar do abismo em que nos colocamos: o abismo da ocupação demasiada com as redes de significados que construímos ao longo da história, nos aprisionando, na história de nosso tempo presente.
Pensar o tempo presente é pensar as especificidades de nosso lugar. É entender como construímos uma cadeia de significados que nos trouxe onde estamos. E o que parece nos mostrar as questões desse tempo, e ainda as futuras histórias do tempo presente, ou as histórias do tempo presente do passado, é que nossa racionalidade tão festejada, condição que parece ser meramente evolutiva, se abre no tempo de um conhecimento específico para nos chamar à compreensão de nossa condição terminal. O tempo presente e todas as suas facetas implícitas em sua história parece ser somente um emaranhado de benefícios ou malefícios produzidos por um entendimento racional da realidade que na verdade quer nos desviar por um trajeto de fuga, do que precisaria ser o objeto a ser pensado: a inexistência. A falta de significado que nos coloca todos os dias diante do mergulho no consumismo, na enlouquecida gana por informação, no desprezo à ociosidade tida como o avesso da produtividade, num mundo onde tudo tem que acontecer cada vez mais rápido, funciona como maneira de dar significado à existência, mas parece mais uma forma de aplacar a angústia da verdade da inexistência. A inexistência que se transfigura no vazio da existência em si.
Talvez sempre tenhamos vivido o niilismo, por estarmos amarrados e amordaçados pelo desejo do sentido, reprimidos pelo monstro da moralidade, da normalidade, da simetria e da ordem inventada, que insiste acompanhar nossa racionalidade pelo tempo. Nosso maior monstro parece ser o desejo secreto de ser “normal", de obter esse bem moral. Digo bem moral porque, tanto os bens capitais quanto os morais estão na mesma esfera no que diz respeito aos desejos humanos. Uma esfera de sentido que inventamos para lidar com a falta de sentido, com o niilismo que parece sempre ter estado alí. Nessa esfera de busca por sentido, ser apenas perde a razão para dar lugar à sociedade do ter: sejam bens morais, ou bens materiais. Precisamos ter simplesmente, porque não sabemos quem somos e o que fazer com esse desconhecimento.

Nossos demônios somos nós

Buscamos a simetria em todas as coisas. As próprias religiões monoteístas, nas culturas do mundo inteiro, identificam o divino à ordem e à simetria. A estética da ordem natural das coisas, a beleza do mundo natural, direciona nosso pensamento assim como nossa ciência, a buscar a organização perfeita, seja no cosmos, seja na vida prática em nosso planeta. Parece bem da verdade então que a assimetria incomoda, e muito! E com nossas relações e construções de significado, não poderia ser diferente.
Porém, parece bem claro que todas as implicações do ser humano como multiplicidade e as divergências que ela causa nas nossas produções de significado, nos levam a observar um mundo cada vez mais assimétrico. Estaria nessa verdade a falta da própria verdade, de fundamento e finalidade para a nossa existência? Uma falta de sentido com qual temos convivido desde sempre?
O maior monstro que nos acomete é nossa tentativa exagerada de se enquadrar na normalidade, na simetria da moral, dos valores e verdades que viemos construindo no decorrer de nossa história. Pensar em se desfazer de todas as nossas construções possivelmente seria um tiro no próprio pé, uma briga com a própria constituição, uma guerra sem fim com a cultura e a própria subjetividade amarrada a ela. Se isso fosse totalmente possível, certamente nos levaria a uma desordem e falta de sentido ainda maiores. Porém, somente essa disposição, que é uma tentativa sutil em meio ao conjunto complexo que somos, é o que de fato transforma o mundo fazendo dele essa infinidade de possibilidades que cria o sentido na falta de sentido.
Ter em mente que até nossa crítica é a crítica do homem de agora, imbuído das demandas desse tempo, parece a saída para uma sociedade mais viável em termos de convivência, já que a dúvida é a fonte inesgotável de criação de possibilidades e compreensão das diferenças que carregamos. Nos compreender imersos em mundo sem verdades prontas e acabadas, nos ajudaria a construir uma ética que mesmo em um mundo sem sentido, promoveria bem estar no encontro das diferenças.


Texto: Luciane Trevisan Leal


Inspirado na provocativa palestra do Prof. Leandro Chevitarese (PUC Rio/ UFRRJ), no Café Filosófico em 02 de Junho de 2011.


[1] Nietzsche ressalta que há uma cristianização do pensamento platônico. Em Agostinho aparece a mesma estrutura, que separa o mundo aparente do verdadeiro, sendo agora o mundo aparente o do corpo, do pecado, e o mundo verdadeiro as certezas cristãs com seus valores fundamentais que dão sentido ao mundo.
[2] Freud influencia profundamente essa nova forma de encarar o sujeito colocando em questão as condições da inconsciência como motor para tomada de atitudes e comportamentos, trazendo à tona um lugar dentro da psique humana até então desconhecido. 






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