Na Igreja Católica, o termo "digno" sempre me incomodou bastante. Para quem já levou isso muito à sério (freqüentadora assídua da Igreja, dos grupos e discussões de teologia e estudos bíblicos), os resultados podem ser nefastos...
Falando deste caso em particular sobre o matrimônio heterossexual e a relação com a “existência digna”, na fala de Bento XVI: A união do homem e da mulher nessa comunidade de amor e de vida que é o casamento constitui o único 'lugar' digno para a chamada à existência de um novo ser humano, que sempre é um presente.
Falando deste caso em particular sobre o matrimônio heterossexual e a relação com a “existência digna”, na fala de Bento XVI: A união do homem e da mulher nessa comunidade de amor e de vida que é o casamento constitui o único 'lugar' digno para a chamada à existência de um novo ser humano, que sempre é um presente.
(Vejam link da notícia): http://noticias.r7.com/internacional/noticias/papa-diz-que-casamento-heterossexual-e-o-unico-digno-para-procriar-20120225.html
Não me parece haver nenhuma relação entre o matrimônio sacramentado pela a Igreja e um chamado digno à existência. E também me parece contraditória a fala onde se enfatiza que o casamento seja o ÚNICO lugar digno para um nascimento, já que, como considerado pelo próprio Ratzinger na mesma fala: "um novo ser humano é SEMPRE um presente".
Mas bem! Quando Bento XVI fala do “chamado” isso muda tudo. A existência passa mesmo a ser uma questão religiosa.
Mas bem! Quando Bento XVI fala do “chamado” isso muda tudo. A existência passa mesmo a ser uma questão religiosa.
O meu nascimento e de meus irmãos por exemplo, levando-se em conta esta lógica, foram considerados indignos pela Igreja Católica e por isso mesmo muito distantes de terem o status de “um chamado à existência”. Por mais que minha mãe tenha batizado, crismado e nos encaminhado para a Igreja todos os domingos, ainda assim, ela não tinha permissão para receber a hóstia Sagrada porque vivia em pecado. “Juntou-se” a um homem que a amava, mas era divorciado. O fruto foram quatro filhos do pecado. No compartilhar de uma união com muito amor até a morte de meu pai aos meus 22 anos de idade (sou a filha mais velha de quatro), ouvi minha mãe dizer que não tinha permissão para a comunhão com o corpo de Cristo por ter se unido a um homem divorciado. Para a Igreja, minha pobre mãe é a maior pecadora.
Bem! Nós, nascidos do pecado, estamos todos muito bem, obrigado. Indignos e longe da Igreja Católica.
Claro que ao menos nas grandes capitais católicas/cristãs do mundo, a fase do divórcio como um comportamento execrável e o drama da união sem casamento na Igreja, virgindade e etc, são até bem aceitos. Que bom para nós, destinados ao inferno. Ao menos temos alguma paz neste planeta no tempo que nos resta até a punição eterna. Mas infelizmente, os pobres homossexuais, por exemplo, que queiram adotar um filho e lhes oferecer seu amor e inserção “digna” na sociedade, além de como nós estarem condenados ao fogo do inferno eterno, ainda precisariam penar neste mundo, sofrendo por suas escolhas, à margem de uma dominante filosofia judaico-cristã que insiste não esquecer que a Idade Média é passado e que sua defesa dos fantásticos desígnios de Deus para a humanidade (na outra vida, claro), não colam mais.
Tudo isso é tão burro e vazio de significado que sinceramente acredito que nem o próprio Bento XVI sustente em seu íntimo o que prega. Um homem que detém o nível de educação e a quantidade de leitura que em muito superara os grandes doutores das ciências humanas de nosso tempo, certamente não acredita no próprio discurso. Porém, estamos falando de algo maior que o discurso: o poder conferido pela tradição. É, meus amigos! Estamos falando de política.
O que seria de todos os grupos cristãos mundo a fora, se o Pontífice, a autoridade suprema da primeira e mais tradicional Igreja Cristã não sustentasse as mesmas falácias que desenharam o pensamento Cristão há dois mil anos? Isso vale para todas as ditas Igrejas Cristãs, dissidentes, que não passam de uma extensão piorada das atrocidades contra os valores de tolerância e ética. Valores que custaram vidas ao longo da história do ocidente, numa tentativa exaustiva e bela de construção de uma sociedade mais justa. Para quê perdemos as valiosas vidas que ajudaram a construir nossa história passada e esse lapso de sanidade que conseguimos de tempos em tempos fazer emergir? Para ouvir as mesmas autoridades inquisitivas que sempre perambularam pelo mundo, sabendo de sua pequenez diante do todo cósmico e incompreensível para suas limitadas mentes, mas incapazes de reconhecê-la, por grande amor à vida terrena que tanto criticam. Criam sua regras contra as “coisas do mundo” que adoram.
As “coisas do mundo” tão desprezíveis para os olhos das tantas religiões, não são somente questões morais de cunho sexual e o fazer comportamental “adequado” aos olhos da cultura de nosso tempo. Tem um elemento que parece sobrepor a própria cultura, um elemento básico que dá seus nuances a ela: poder.
As verdades religiosas que vocês todos defendem com tanto empenho, meus amigos, não passam da fusão de micro-estruturas de poder legitimadas ao longo da história, pelas poderosas autoridades que precisam do mundo tanto quanto nós, que necessitam dar significados ao que não compreendem tanto quanto qualquer mortal. Vocês meus amigos, se empenham mais em construir demônios e infernos eternos em sua fantasia contra o mundo que tanto desejam, a reconhecer a realidade: a incapacidade de compreensão totalizante do real e da boa convivência entre as muitas diferenças. Vocês antes de criarem seus deuses, conferem autoridade sobrenatural a qualquer um que lhes dê um sentido. Vocês não querem ser pequenos, querem ser grandes, como as poderosas autoridades que exaltam. E qualquer absurdo será sempre bem vindo! Como este de dizer que o único lugar para o nascimento de uma criança é dentro do casamento sacramentado pela Igreja.
As verdades religiosas que vocês todos defendem com tanto empenho, meus amigos, não passam da fusão de micro-estruturas de poder legitimadas ao longo da história, pelas poderosas autoridades que precisam do mundo tanto quanto nós, que necessitam dar significados ao que não compreendem tanto quanto qualquer mortal. Vocês meus amigos, se empenham mais em construir demônios e infernos eternos em sua fantasia contra o mundo que tanto desejam, a reconhecer a realidade: a incapacidade de compreensão totalizante do real e da boa convivência entre as muitas diferenças. Vocês antes de criarem seus deuses, conferem autoridade sobrenatural a qualquer um que lhes dê um sentido. Vocês não querem ser pequenos, querem ser grandes, como as poderosas autoridades que exaltam. E qualquer absurdo será sempre bem vindo! Como este de dizer que o único lugar para o nascimento de uma criança é dentro do casamento sacramentado pela Igreja.
Nunca consegui entender como podem se acreditar humildes por baixo dessa capa de arrogância. Grande coisa o casamento religioso e o disfarce de quem vive infeliz para dar respostas à essa sociedade doente.
Sabem que já tentaram “exorcizar” a casa de um membro de minha família por conta de meus pensamentos? Nada mais justo! O demônio que sou é um incômodo muito bem vindo. Os exime da responsabilidade de olhar o próprio umbigo e deixar a preguiça de lado na hora em que se precisa questionar as respostas prontas e as inúteis barganhas com Deus. Vocês precisam de um demônio, eu entendo. Precisam combater alguém por não terem coragem o suficiente para encarar a falta de lógica da própria existência.
Os filhos indignos de uniões não sacramentadas são assim: demônios encorajados pela sua ignorância. Parabéns!
Texto: Luciane Trevisan Leal
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