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Caso Thor Batista: Ser rico no Brasil é um problema...



Algumas considerações

  1. Vivemos num país de corruptos o que não quer dizer que todos o sejam.
  2. Nem todo rico é desonesto e paga propina para se livrar do que quer que seja. Nem todo pobre é honesto ou anda sempre “na linha”.
  3. Nem todo rico é imprudente. Não há nenhuma relação lógica entre riqueza e imprudência, ou pobreza e prudência.
  4. Pobre tb bebe e pode sim atravessar com a bicicleta na frente do carro do rico e famoso.
  5. Não há nenhuma razão para acreditar que o fato do cara ser rico e famoso anula a possibilidade do cara pobre ter bebido e se jogado na frente de seu carro.
  6. Se eu for atropelada na Washington Luis por um pobre desconhecido, se ele prestar socorro e descobrirem que eu estava com álcool no sangue, ninguém vai dar à mínima para o infeliz que me atropelou e matou, nem construirá as mais terríveis teorias conspiratórias.
  7. Thor poderia ser vc ou eu (pobres e certinhos). O ciclista da rodovia poderia ser nosso filho (bêbado e todo errado).
  8. Nosso país só irá para frente quando o brasileiro deixar de fazer a linha: somos os pobres, vítimas dos ricos.
  9. Ao invés de nos preocuparmos tanto com o filho do rico, quem sabe não procuramos nos inteirar mais sobre os grandalhões que escrevem nossas leis e que usam nosso dinheiro para toda ordem de roubalheira.
  10. Gostaria de ver brasileiros discutindo em quem votar e porquê. Mas isso nunca vai acontecer. Sabem por quê? Porque a idéia pronta e acabada é mais fácil de ser disseminada, além de ser mais divertida. Ninguém vai se dar ao trabalho de pesquisar porcaria nenhuma para votar. Nós só gostamos de fofoca sobre ricos e famosos.
  11. Fazer a linha “estou indignado” e usar qualquer bode expiatório rico para isso é mais fácil do que pensar e se indignar de verdade. 
  12. Paremos de brincar de indignação. 


Luciane Trevisan Leal


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Artigo: A Busca pelo Sentido


Existe uma verdade a partir da qual deveríamos nos guiar? Há uma conduta moral acertada, um valor essencial a orientar nossas ações pelo mundo?
A cada tempo no caminhar da existência humana houve uma verdade a orientar a conduta. Nos dizem a todo tempo como somos e como devemos ser. Parece precisar existir na tessitura do espaço tempo que acomoda nossa existência uma verdade fundamental, necessária, um elemento primordial qualquer que propicie uma convivência harmônica em sociedade.
Um mundo sem ordem moral parece sem finalidade e sentido. Mas e se não existir de fato um sentido para o mundo, o que direcionaria ou orientaria nossa conduta? Sem uma orientação, não se trataria então de um mundo sem esperança e niilista. O absurdo de um mundo sem ordem moral é possível?
Estas questões, muito atuais, são ainda questões que repetem estruturas antigas e estão na base dos significados que construímos e de nossa forma de ser e estar no mundo.
Podemos procurar um elemento qualquer que nos ajude a criar os códigos morais de conduta universais que tanto desejamos e que parece mesmo que necessitamos. Mas talvez esteja no resultado da crítica a essa busca, a essência de uma ética natural, forjada na abertura para o mundo que somente a crítica a ele próprio é capaz de criar. Uma crítica à própria racionalidade submersa no tempo que abriga nossa subjetividade. 
O texto aqui redigido tem a intenção de mostrar, resumidamente, como no decorrer da história ocidental sempre houve uma tentativa de essencializar o ser humano, o que parece mais uma saída pela via mais fácil, para se criar um fundamento para existência e sentido para um mundo onde se possa ter esperança, em oposição ao niilismo que insiste aterrorizar.


Nossas Heranças


Os filósofos pré-socráticos encerravam na razão a maneira correta de enxergar a mundo. Somente a razão o explicaria. Mas Platão alerta que essa realidade é uma ilusão, o mundo na verdade é equívoco, sombras (crenças, certezas, preconceitos) que vemos e vivenciamos, aprisionados em uma caverna. A compreensão de como são as coisas, efetivamente, somente é possível fora da Caverna, está em algum lugar que para Platão, é o mundo das idéias, das formas. Somente a saída da caverna apresenta essa realidade que aí sim, orientará, no retorno à caverna, a atitude ética capaz de construir uma ação correta no mundo.
Para o filósofo o mundo das idéias carrega consigo as verdades inspiradoras dos valores que devem guiar nossa existência, valores desconhecidos, cujo papel do filósofo é mostrar o caminho para sua descoberta. O filósofo seria aquele a nos ascender ao conhecimento.
Nesta ilustração há uma separação entre o mundo aparente e o mundo real, onde se considera um processo de elevação em direção ao conhecimento, que carrega em si, o conjunto de valores a serem aplicados no modo de ação correto diante do mundo. Estes elementos de um processo que nos direciona ao conhecimento dos valores adequados eticamente têm total importância no cenário que está por vir, quando acaba se fundindo com a visão de mundo judaico-cristã.
Santo Agostinho faz uma releitura de Platão[1] apontando uma verdade fundamental acessível a todos para a qual devemos voltar à atenção, verdade a orientar nossa ação no mundo. O sentido, a lógica dos valores a serem os legítimos modelos de comportamento não são sabidos por conta de uma ignorância da verdade. A verdade, numa alusão clara ao pensamento platônico, se converte na revelação do mundo espiritual cristão. Uma rede de significação que tem como base de apoio agora a figura humana do Cristo, que ocupa o anterior papel do filósofo como caminho para o conhecimento. Cristo suplanta o mundo aparente do pecado (mundo real), apresentado a moralidade implícita na verdade (mundo das idéias), produzindo assim as ações da verdade revelada e um sentido para a existência.
O homem da modernidade que se entende em oposição aos elementos religiosos da herança medieval, parece representar a mesma estrutura descrita anteriormente, mas refletida agora no mundo do saber científico e das ideologias que vigoram. Neste momento as incertezas se voltam para o sujeito, novo limiar da verdade, quem irá de fato produzir e contribuir para o significado do mundo e da verdade. Na modernidade há uma forte construção de identidade e sentido: um cidadão tem que ser justo, trabalhar, respeitar a lei para contribuir com as ideologias democráticas, de justiça e liberdade, somente assim produzindo os valores adequados a uma sociedade mais igualitária, democrática. Um “novo” velho sentido para o mundo, que as democracias modernas irão absorver.
Estas ideias que parecem repetir fundamentações muito antigas caem na desconfiança na contemporaneidade, alçando ao patamar do desencanto o projeto da modernidade, onde dúvidas transitam no mesmo espaço das ideologias democráticas e de todo o conhecimento científico adquirido. No pós-guerra essas dúvidas ganham força e o mundo contemporâneo começa a se ver à esgueira de pilares construídos no decorrer da história que começam a desmoronar. Justiça, liberdade e democracia? São de fato verdades ou meras possibilidades, muito relativas, de um sujeito que tenta avidamente produzir sentido para sua existência?
Talvez a maior herança da modernidade seja de fato o apelo ao indivíduo, à subjetividade que caminha lado a lado à história. Entender-se como sujeito que pode agir em prol de um mundo melhor, por ser ente que existe porque pensa, porque é, deixa na herança cartesiana um tom quase poético. Nossa racionalidade como prova de existência e todas as possibilidades que essa elevação nos apresenta. Porém pensadores como Shopenhauer e Nietzsche, tidos como filósofos da suspeita[2] desenham um novo arcabouço para o sujeito racional, levando em conta outras facetas de nossa subjetividade. Não seríamos também constituídos de vontade, instintos, além do bem e do mal? Até que ponto somos capazes de lidar com nossos afetos, com os desejos de nosso corpo? Não haveria uma série de coisas ocultas por trás de nossas moralidades com as quais não conseguimos lidar? Será que a genealogia da moral que optamos por seguir os pressupostos, sem questionamentos, é efetivamente a totalidade de nossas vontades?  Caso não seja, não estaríamos assim, falsificando a vida? Sabemos porque fazemos o que fazemos ou somos somente dominados pela lógica de nosso tempo?
A crise da cultura que estas desconfianças provocam, reascendem questões sobre se há de fato uma verdade, pressupostos morais e éticos passíveis de acomodar nossas relações sociais ou mesmo alguma consciência individual do ser. Será mesmo que há alguma finalidade, algum sentido para o mundo que construímos e que nos constitui? Se não há finalidade, como lidar com essa verdade? São as principais questões que hoje nos colocamos.
Mas e se não houverem de fato princípios ou fundamentos, ou mesmo se eles existirem, mas nós não possamos desvendá-los, como prosseguir?

Sofrimento e seu significado

Os gregos encaravam a tragédia da vida com poesia. Nós encaramos a tragédia da vida inventando significados para ela. No decorrer da história ocidental, principalmente, da cultura judaico-cristã, dar sentido ao sofrimento parece a resposta para todas as dúvidas. O sofrimento é penalização de uma verdade que não é compreendida. É quase uma entidade viva a se deparar com o homem e desafiá-lo a escolher o plano de Deus, a dimensão espiritual para além da vida, em contraposição aos desejos do corpo. Uma escolha que re-significa a existência, na possibilidade de existência futura nas promessas do além-vida. E mesmo que não nos voltemos para o viés religioso, o sofrimento é justificado, na escolha pelas causas justas do mundo. E assim inventamos sentido e reafirmamos as mesmas estruturas, sem imaginar a menor possibilidade de um mundo sem finalidade. Porque pensar um mundo sem finalidade é não encontrar justificativa para o sofrimento, o que seria absolutamente insuportável.  
O último homem de Nietzsche é incapaz de criar, amar, desejar, e apenas inventa uma verdade artificial para se enganar a cerca dela. Mas a questão que se coloca é: e se o sentido da vida desse último homem é viver exatamente desta maneira? Será que ele é de fato incapaz de ser diferente, ou somente um covarde a não encarar de frente suas escolhas? Se caso optasse por assumir a totalidade de suas possibilidades, como diria Heidegger, como viver com elas num mundo onde as redes de significados são tecidas por linhas que dificilmente se arrebentam? E mesmo que ele queira pagar o preço: até o preço parece ter sido capitalizado pela ordem do mundo.
Até mesmo o sem sentido do mundo parece estar imerso em uma ordem de sentido que  paira sobre nossas cabeças, tendo como resultado somente uma possibilidade de fato: a dúvida. É somente por intermédio dela que conseguimos formular a crítica necessária capaz de nos tirar do abismo em que nos colocamos: o abismo da ocupação demasiada com as redes de significados que construímos ao longo da história, nos aprisionando, na história de nosso tempo presente.
Pensar o tempo presente é pensar as especificidades de nosso lugar. É entender como construímos uma cadeia de significados que nos trouxe onde estamos. E o que parece nos mostrar as questões desse tempo, e ainda as futuras histórias do tempo presente, ou as histórias do tempo presente do passado, é que nossa racionalidade tão festejada, condição que parece ser meramente evolutiva, se abre no tempo de um conhecimento específico para nos chamar à compreensão de nossa condição terminal. O tempo presente e todas as suas facetas implícitas em sua história parece ser somente um emaranhado de benefícios ou malefícios produzidos por um entendimento racional da realidade que na verdade quer nos desviar por um trajeto de fuga, do que precisaria ser o objeto a ser pensado: a inexistência. A falta de significado que nos coloca todos os dias diante do mergulho no consumismo, na enlouquecida gana por informação, no desprezo à ociosidade tida como o avesso da produtividade, num mundo onde tudo tem que acontecer cada vez mais rápido, funciona como maneira de dar significado à existência, mas parece mais uma forma de aplacar a angústia da verdade da inexistência. A inexistência que se transfigura no vazio da existência em si.
Talvez sempre tenhamos vivido o niilismo, por estarmos amarrados e amordaçados pelo desejo do sentido, reprimidos pelo monstro da moralidade, da normalidade, da simetria e da ordem inventada, que insiste acompanhar nossa racionalidade pelo tempo. Nosso maior monstro parece ser o desejo secreto de ser “normal", de obter esse bem moral. Digo bem moral porque, tanto os bens capitais quanto os morais estão na mesma esfera no que diz respeito aos desejos humanos. Uma esfera de sentido que inventamos para lidar com a falta de sentido, com o niilismo que parece sempre ter estado alí. Nessa esfera de busca por sentido, ser apenas perde a razão para dar lugar à sociedade do ter: sejam bens morais, ou bens materiais. Precisamos ter simplesmente, porque não sabemos quem somos e o que fazer com esse desconhecimento.

Nossos demônios somos nós

Buscamos a simetria em todas as coisas. As próprias religiões monoteístas, nas culturas do mundo inteiro, identificam o divino à ordem e à simetria. A estética da ordem natural das coisas, a beleza do mundo natural, direciona nosso pensamento assim como nossa ciência, a buscar a organização perfeita, seja no cosmos, seja na vida prática em nosso planeta. Parece bem da verdade então que a assimetria incomoda, e muito! E com nossas relações e construções de significado, não poderia ser diferente.
Porém, parece bem claro que todas as implicações do ser humano como multiplicidade e as divergências que ela causa nas nossas produções de significado, nos levam a observar um mundo cada vez mais assimétrico. Estaria nessa verdade a falta da própria verdade, de fundamento e finalidade para a nossa existência? Uma falta de sentido com qual temos convivido desde sempre?
O maior monstro que nos acomete é nossa tentativa exagerada de se enquadrar na normalidade, na simetria da moral, dos valores e verdades que viemos construindo no decorrer de nossa história. Pensar em se desfazer de todas as nossas construções possivelmente seria um tiro no próprio pé, uma briga com a própria constituição, uma guerra sem fim com a cultura e a própria subjetividade amarrada a ela. Se isso fosse totalmente possível, certamente nos levaria a uma desordem e falta de sentido ainda maiores. Porém, somente essa disposição, que é uma tentativa sutil em meio ao conjunto complexo que somos, é o que de fato transforma o mundo fazendo dele essa infinidade de possibilidades que cria o sentido na falta de sentido.
Ter em mente que até nossa crítica é a crítica do homem de agora, imbuído das demandas desse tempo, parece a saída para uma sociedade mais viável em termos de convivência, já que a dúvida é a fonte inesgotável de criação de possibilidades e compreensão das diferenças que carregamos. Nos compreender imersos em mundo sem verdades prontas e acabadas, nos ajudaria a construir uma ética que mesmo em um mundo sem sentido, promoveria bem estar no encontro das diferenças.


Texto: Luciane Trevisan Leal


Inspirado na provocativa palestra do Prof. Leandro Chevitarese (PUC Rio/ UFRRJ), no Café Filosófico em 02 de Junho de 2011.


[1] Nietzsche ressalta que há uma cristianização do pensamento platônico. Em Agostinho aparece a mesma estrutura, que separa o mundo aparente do verdadeiro, sendo agora o mundo aparente o do corpo, do pecado, e o mundo verdadeiro as certezas cristãs com seus valores fundamentais que dão sentido ao mundo.
[2] Freud influencia profundamente essa nova forma de encarar o sujeito colocando em questão as condições da inconsciência como motor para tomada de atitudes e comportamentos, trazendo à tona um lugar dentro da psique humana até então desconhecido. 






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Quem é você de fato?


Você ouve e lê: alguns, somente.
Não permite a possibilidade da concordância ou discordância entre nós. Pois não reescrevo o que escrevem os grandes, os afamados. Não compartilho de seu gosto literário, intelectual e artístico, único e seletivo! Não sou aquela que faz gosto em reverberar as vozes que se apresentam originais mas continuam incansavelmente ecoando sons tão similares.
Você não me lê seriamente. Sou um anônimo que se equivale ao inexistente no mundo aparente, no lugar do tempo do marcketing e do estardalhaço que faz uns grandes e outros pequenos. Por mais que você aprecie como poucos a possibilidade de novas interpretações, minha novidade é velha. É discrição e sutileza antigas no aparecer, que precisa utilizar-se dos meios contemporâneos para se fazer ver. Única possibilidade!
Ah... os meios contemporâneos! Estes que critica, mas despreza o fato de também você absorvê-los em seus interesses.
É, definitivamente! Você não me lê cuidadosamente, pois não pretendo reproduzir um mesmo saber, que por mais que não seja do senso comum – marginalização do intelecto –, é comum senso entre as grandes cabeças de um circuito fechado – pensante elite que não é o mesmo que elite pensante.
Na verdade, penso que você não deveria se preocupar tanto em ser, ao menos de vez em quando, “humano, demasiado humano”. Você tem autorização do cosmos para isso... mesmo que não a obtenha de seu ego. Você pode contrapor-se às expectativas e se entreter, quantas vezes e no tempo que quiser, com o mesmo que o mundo todo interage, com o mesmo ao que todo mundo reage. Isso não o fará menor. Por mais que os conterrâneos do lugar que você avidamente precisa e quer fazer parte achem um tanto... senso comum demais!
Quem é você afinal? O intelectual de hoje? É, é sim, um acadêmico, espelho do seu tempo mais do imagina! Se entende como um formador de opinião original, mas é na maioria das vezes, alguém opinando com a opinião dos outros. Grande parte de seu tempo – com os créditos que não acabam mais –, é utilizado em favor de um mundo “mais pensante”... que pensa não ignorar o ignorado, quando na verdade, para não ser o desabonado em questão, faz coro as mesmas ignorâncias. E assim... repetindo, para ser repetido, reproduzindo, para que te reproduzam e não se sinta fora do jogo o que, contraditoriamente, em suas produções intelectuais critica.
Pergunto: você seria sincero o suficiente consigo mesmo, para pensar que na mesma proporção dos alienados da mídia, há em qualidade, por mais que não em números, os alienados da restrita elite acadêmica e artística? Você me chamaria de louca por assim perguntar – de marxista sei que vai me rotular pelos termos já usados - se não seria loucura maior acreditar que alienação é todo o contrário prático às teorias que você faz questão de reproduzir, sem de fato observar com cuidado a possibilidade de execução na vida cotidiana, no lançar-se e estar no mundo que você também é? Evidentemente que a teorização e a arte parecem permear o patamar da abstração que tenta refletir o mundo. Mas não seria prudente pensar que um esforço para não parecer exatamente como o social execrável que redunda dos seus escritos ou fala, seria um tanto, deixe-me pensar... de pertinente a exemplar? Fico me perguntando se você seria sincero o suficiente consigo mesmo para afirmar que há uma igual predisposição de alienação vinculada ao grupo no qual você pode, voluntariamente, escolher estar, quando que comparado ao grande grupo da social apatia às suas habilidade teóricas, predisposições cognitivas e criticas? Você que pensa tão bem “a metafísica do real e a física do imaginário”, seria capaz de se encaixar e se auto-avaliar dentro do concreto habitual?
Sabe, amigo, vejo essas contradições nas universidades, nos congressos, na arte e na mídia que se coloca acima do trivial. Vejo as mesmas historinhas, os mesmos grupos se acreditando diferentes porém tão iguais nos discursos, por mais que amplamente sedutores na forma. A fórmula da forma é a mesma. A condição humana é a mesma: o homem crítico é o crítico de determinado grupo. É o homem crítico do tempo, perpassando o próprio tempo por sua condição tão humana, que não abarca a capacidade devida para apreender – diga-se em adição, viver – tudo o que nos faz seres no espaço-tempo. Infelizmente, este homem não é, e não pode ter autonomia, neutralidade crítica o suficiente para se ver, olhar para si dentro do mundo que ele próprio contradiz. 
Que coisa!
Obviamente que assim, também o sou...
Mas... então, por favor, não me venha com churumelas! Não sou melhor que o meu vizinho, nem você e melhor do que aquele que se avizinha à sua crença e aplaude sua grande performance! Não me venha com essa de que a sua minoria – os papéis sociais de hoje se inverteram, não que eu discorde do benefício proveniente dessa transformação – é melhor que a grande maioria.
Quem é você, meu amigo, senão apenas mais um, com um rótulo mais admirável em alguns circuitos restritos? É homem que pensa mais, logo existe mais? Você não é menos humano que qualquer um que transita por entre locais que possivelmente, nunca passará. Acorde para sua existência tão significativa e pouco significante, como a de qualquer um que despreza. Você não é tão diferente ou especial quanto imagina!
Sabe! Relendo esse texto, percebi que as linhas e entrelinhas servem também aos religiosos, que se dizem autoridades detentoras da grande verdade! Percebi ainda que se encaixa perfeitamente aos políticos e empresários que usam e abusam de sua pobre retórica, muito bem aplicada. Acredito que caiba ainda, para todos os que se voluntariam a se relacionar conosco. Ou mesmo aqueles com quem temos que involuntariamente, conviver.
Poxa, que constatação óbvia! Como somos todos diferentes, e ao mesmo tempo tão iguais, em meio às demandas do tempo de nossas vivências, não e mesmo?!


Texto: Luciane Trevisan Leal

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O Massacre de Realengo e nossos Monstros






Parece não haver mesmo palavras para definir a mistura de sensações com a última aberração que assistimos insistentemente pelos meios de comunicação nos últimos dias: o massacre na escola de Realengo, no Rio de Janeiro. Raiva, indignação, tristeza, mas talvez a maior sensação e mais horrível de todas: medo! Como compreender a verdade gritante que a qualquer momento uma mente ensandecida possa atravessar o seu caminho, o meu caminho, a vida das pessoas que amamos, a vida de crianças. Meu Deus, crianças! O que leva um rapaz jovem, com a vida toda pela frente, a engendrar, de forma calculada e maquiavélica, a execução em série de crianças?
Quando vivências sociais infelizes vêm de encontro à estruturas mentais desnorteadas, o saldo é tristeza e perplexidade. Pessoas capazes de tamanha atrocidade são perturbadas mentalmente certamente. Mas não se pode deixar de salientar que mesmo psicopatias são alimentadas e legitimadas por uma doença que não é somente individual, mas social: covardia. Uma incapacidade de enfrentar a vida mas com grande habilidade para colocar no buraco da alma qualquer discurso fascista e egoísta que preencha o vazio e ajude a inflar o ego enfermo.
Mentes alucinadas e ensimesmadas quando apresentadas à discursos fundamentalistas e preconceituosos encontram nessas falas a “salvação” para o buraco individual e social em que se encontram, buraco este, na maioria das vezes, cavado por outras mentes, não menos adoecidas pelo meio em que vivem ou criação, mas talvez biologicamente mais adaptadas a ele, e por isso consideradas mais “fortes” ou racionais. Estas últimas, que deveriam desencorajar certos discursos que perturbam o senso crítico – ainda mais nos casos de quem tem pouco ou nenhum –, ao contrário, nutrem as turbas de carentes incapazes de conviver com suas limitações e as dos outros, com os desapontamentos e rejeições vexatórias nas relações, com as frustrações que qualquer um que está no mundo está sujeito a sofrer.
Ao menos a parte conhecida da história de Welington Menezes, é a mesma de muitos, inclusive de conhecidos meus dos quais já tive e tenho medo de determinadas atitudes. Pessoas introvertidas (não falo da timidez natural), isoladas, que encontram na solidão e fuga das vivências frustrantes, uma forma de não ter de lidar com o limite do outro que não podem compreender ou controlar. Pessoas que entendem não estar de posse absoluta das próprias emoções que emanam do contato com o outro, este ser estranho, que poucas vezes estará na mesma sintonia, e por isso mesmo perturbará a ordem de seu próprio descontrole habitual.
O perigo é que pessoas assim, que vão se isolando cada vez mais e mais em seu mundinho de reclusão, vão pouco a pouco inventando uma realidade própria. Percebem o mundo externo pelos sentidos como qualquer outra, o organizam à sua maneira como qualquer pessoa, porém, escrevem suas representações com base na leitura de uma realidade distorcida. E quando esse mundo externo ao seu isolamento apresenta um discurso que os transporte de alguma forma para fora de sua reclusão, incluindo-os de alguma maneira no lugar em que queriam estar e serem aceitos, tapando assim o buraco de sua alma e gerando os símbolos que necessitam para dar sentido ao que vêm e não compreendem ou controlam, eles se entregam de cabeça àquela apreciação e razão para existência, no meio que acreditam agora ser possível pertencer. Erguem ao patamar da adoração os símbolos que dão significado àquilo que vêm. Identificam neles o que os agrega, o que lhes traz um significado qualquer de pertencimento, mesmo que seja pertencimento no seio do repugnante, da covardia.
Os símbolos que vão sendo incutidos, que criam essa sensação de pertencimento a alguma coisa, que todos nós procuramos – símbolos que doentes mentais também buscam –, são construídos pelos discursos correntes, de toda a sociedade, são forjados pelas nossas crenças e certezas. Se nossas crenças e certezas unem, facilitam a convivência, agregam valores de tolerância e amor, contribuímos na constituição de crianças, futuros adultos, comprometidos com uma convivência social pacífica. Mas se ao contrário nossas crenças segregam, enfatizam a diferença como alguma coisa a ser intolerável ou feia, construímos esse tipo de monstro, que pode ser doente mental ou não.
Welington Menezes certamente tinha problemas mentais, até porque matar criancinhas com a frieza de uma pedra ultrapassa a qualidade da perversão de um neurótico apenas. Porém, não é a doença mental que torna alguém monstruoso. Todos nós, com nossas crenças e verdades banhadas pela nossa covardia ao encarar o diferente de nós – e porque não dizer, até o nosso diferente íntimo –, é que construímos nossos monstros exteriores… e também os interiores.

Texto: Luciane Trevisan Leal

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Discurso que Legitima o Crime



Na fala política e de alguns atores do cenário cultural e acadêmico brasileiro, há um encorajamento de discursos superados, que não dão mais conta de explicar as razões para tamanha barbárie a que todos nós estamos absolutamente vulneráveis e reféns na “Cidade Maravilhosa”: são os discursos que polarizam a sociedade, dividem seres humanos tendo como base valores econômicos; falas ultrapassadas que nas entrelinhas só fazem justificar as atitudes de desprezo à sociedade de direito, às regras de boa convivência, às formas civilizadas de coexistência social.
As ideias engendradas nas mentes doentes dos mandantes do crime organizado, são quase que legitimadas, pela lógica não menos patológica, daqueles que formam opiniões e que forjam os discursos que serão reproduzidos. De braços dados a eles, toda a sociedade, todos nós, que reproduzimos estes discursos, também culturalmente imersos na “síndrome da vítima”, tratamos ricos como algozes e pobres como sofredores, não cansando de reafirmar a sociedade do ter e não do ser. Mesmo tecendo críticas mordazes ao consumo desmedido, continuamos agregando valor à esta mentalidade na medida em que nos empenhamos para cada vez aparentar mais e mais status social. Defendemos a ideia da realização plena das vontades, da obrigação pelo sucesso, em todas os setores da vida, mas com empenho particular no que se refere ao sucesso material que em virtude da estrutura social na qual estamos inseridos, parece a maneira mas fácil de se sentir bem sucedido também nos outros setores da vida.
Esta valorização das realizações pessoais, da efetivação dos queres – tratando aqui das vontades mercadológicas –  incutidas na mentalidade da sociedade capitalista, reafirma e produz na mente destes jovens, aprendizes de marginais, exatamente a mesma demanda de todos nós, ditos homens de bem: os bens de consumo vendidos pelo marketing, sucesso, poder. Os desejos são os mesmos, mudando apenas de endereço e dos meios de se alcançar a realização destas vontades. Estes meios sim, me parece, são passíveis de serem diferenciados em função de classe, mas são secundários diante da complexidade das estruturas mentais de nossa sociedade que valoriza a ideia de bem estar garantida pelo dinheiro e pelo sucesso. Isso sim, ao meu ver, está na raiz dos nossos maiores problemas e certamente perpassa a polarização de classe, tão enfatizada como justificativa de nossas mazelas.
Este tipo de pensamento leva jovens adolescentes a levantarem bandeiras contra o Estado e a sociedade, entendidos por eles como inimigos. Estes jovens, imbuídos da mesma ideia de realização plena dos desejos, somente fazem reproduzir o mesmo discurso e atitude de todos nós, não aceitando a impossibilidade da realização de suas vontades, partindo então para a criminalidade, e introjetando de bom grado as justificativas sociais que polarizam a sociedade entre ricos e pobres legitimando suas atitudes de barbárie.
Pergunto até quando a sociologia de esquerda vai continuar justificando as atrocidades praticadas por esses meninos com o discurso da falta de oportunidades? Até quando reproduziremos a mentalidade vigente que serve de alicerce ainda, às políticas assistencialistas caça votos? O investimento em educação no Brasil, no caso do ensino médio, transita pela faixa dos R$ 2500 reais aluno/ano. Enquanto não houver investimento massivo em educação, única possibilidade de introduzir na sociedade mentes pensantes e críticas empenhadas antes em ser para depois ter, continuaremos assistindo indignados os meios usados por cada classe social na tentativa de suprir seus ímpetos consumistas, de sucesso e de exercício de poder.


Texto: Luciane Trevisan Leal
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O Trabalho na Berlinda



Se não precisássemos de dinheiro teríamos muito mais vagas do que desempregados.

Certas palavrinhas mágicas deveriam ser banidas do vocabulário das empresas. Motivação, comprometimento e produtividade, de tão batidas, chegam a provocar uma atitude contrária ao que de fato significam. Um funcionário para ser motivado ou comprometido decididamente não precisa ficar ouvindo isso o tempo todo quase que como uma “chinese chicking torture”. É certo que a motivação e o comprometimento devem figurar como o caminho para se abraçar um objetivo. E é o intuito de se alcançar uma meta traçada que culminará na produtividade. Mas esta meta tem de adentrar um espaço que ultrapassa os limites da empresa. A meta precisa também ser pessoal. E qualquer meta pressupõe retorno, pois estamos falando de seres humanos, e não de máquinas.
O peso destes três conceitos (motivação, comprometimento e produtividade) nos bastidores de RH e gerências das mais variadas, parecem significar a única saída em prol da mobilização de funcionários. Como se incutir uma ideia fixa significasse a salvação da lavoura e não, na verdade, o movimento oposto que é a promoção do ambiente propício para as pragas que atingem qualquer cultura.
A ideia corrente que promove um significado de motivação como uma atitude de dentro para fora está absolutamente equivocada. Digo isso por que, motivação e comprometimento são atitudes geradas por um compromisso mútuo de qualidade. Estar motivado a algo implica pensar a situação de nossa relação com este algo. Buscamos a satisfação que é resultado da qualidade daquilo que recebemos. E na busca pela satisfação, tanto patrões quanto empregados devem ter “em mãos” um ambiente favorável para exercer uma atividade com qualidade. É uma via de mão dupla. Só se está motivado e comprometido com um objetivo que indique retorno. Regra básica do capitalismo, mas também das relações de forma geral. No caso das empresas, a motivação é fazer dinheiro, auferir lucro a donos e acionistas. No caso do funcionário, obter o pagamento pela sua mão de obra produtiva. Ademais, não só em dinheiro pensa o homem, mas também em reconhecimento. Falemos dele então.
Uma empresa, antes de qualquer coisa, precisa de talentos e ideias, ou seja, precisa de gente. De pessoas capazes de modificar um ambiente sem mobilidade de inovação. Seguramente que não precisa de robôs programados. O mais difícil não é encontrar talentos, o entrave está no olhar de quem deve buscar estes talentos. Estamos habituados a enxergar as coisas da maneira que queremos. Infelizmente, o olhar do costume que imobiliza dá menos trabalho. A força do hábito deste olhar, vai nos levar a buscar aquele perfil que vem acompanhando um sistema já instaurado no mercado de trabalho e pobremente modificado. Me fazendo entender: como gerente vou observar e buscar nos meus subordinados as noções que me foram passadas no decorrer de minha trajetória profissional. Mesmo que estas noções sejam um completo engano.
O maior erro nas recentes estratégias de “motivação”de RH está na ideia de que empresa deve ser “a extensão da casa”, de que “somos uma família”. Já que uma pessoa passa a maior parte do tempo de sua vida no trabalho, a empresa DEVE significar quase que a própria razão de vida do empregado. Incutir essa ideia na cabeça do funcionário é estratégia para mantê-lo com o pensamento, e também fisicamente na empresa, quando na verdade, em determinados momentos, ele tem de estar fora do ambiente de trabalho para viver e participar de outras relações que não aquelas de hierarquia e dos processos de produção. O que a maior parte dos “colaboradores”gestores não realiza (gosto de pensar que simplesmente não compreendem isso, a pensar que fingem não saber) é que o talento e a criatividade estão atrelados à uma percepção de mundo abrangente que envolve a participação em outros setores da vida social. Apreensão de mundo abrangente é certamente inviável na limitação de um único ambiente. Quando se vive a vida da empresa, ou somente nela, limita-se a capacidade de percepção da realidade global que somente as variadas experiencias sociais podem promover. Como resultado, restringe-se uma maior capacitação intelectual e criativa naturais do ser humano, produzindo funcionários que trabalharão de forma robótica, sem competência crítica e situacional e logo, limitada capacidade de decisão e criação. A qualidade do trabalho fica prejudicada e a motivação para a atividade quase inexistente.


Como modificar esta realidade? O primeiro passo é acabar com a fantasia de empresa como extensão de nossas casas. Empresa não é família, não misturemos os conceitos. Com família temos um vínculo sanguínio, de cooperação mútua e convivência baseado em valores e finalidade que perpassam os propósitos de uma empresa. O vínculo que temos com qualquer empresa é EMPREGATÍCIO. A finalidade da empresa é o lucro, portanto, nosso propósito na empresa deve ser o reconhecimento financeiro e intelectual de nosso trabalho. As relações pessoais, privadas, que podem eventualmente surgir no ambiente de trabalho, são coisas separadas de nosso objetivo dentro da empresa. Portanto, dizer que a empresa é família é forçar uma barra para se inventar vínculos que na verdade não existem. O ambiente de trabalho tem de ser agradável, respeitável e promover satisfação, mas isso não se consegue incutindo fantasias construídas com o intuito de sugar ao máximo a força laboral com o mínimo de custo. A política deve ser oposta: se preciso de seu talento para que meu negócio dê certo, pagarei por ele. 
Se olhamos por este lado, é um erro alegar que motivados são aqueles que deixam suas atuações em outros setores sociais, para se fazerem presentes em reuniões de empresa ou qualquer outra atividade vinculada a ela na folga ou em horário de descanso, sem receber nada por isso. A mesma regra que se aplica às empresas quando se fala em lucro, deve ser respeitada quando o assunto é o pagamento ao funcionário por seu tempo destinado à atividade produtiva ou qualquer compromisso resultante dela.
O segundo passo. Gestores devem aceitar e valorizar funcionários que prezam sua vida fora da empresa. É um erro acreditar que a motivação se mostra a partir da quase total desistência de vida pessoal e social, fora da empresa. Tempo para se ter uma participação ativa na sociedade, seja em outra atividade laboral paralela ou na canalização de energia em prol de educação e cultura, deveria ser política primordial para qualquer empresa já que, são estas atividades, que irão desenvolver novas habilidades que serão identificadas pelo bom gerente no decorrer do percurso profissional de seus subordinados.
Concluindo. Ser produtivo, motivado, comprometido e etc, somente é possível quando se tem qualidade de vida. Fingir que não adoece, que gosta de reuniões em dias de folga, que é feliz com o acúmulo de funções que inflam o ego mas não o bolso, não faz de ninguém os reais motivados. Motivados são aqueles que gostam do trabalho que fazem, que se sentem satisfeitos pela recompensa financeira e intelectual do trabalho prestado. Motivados negam veementemente a presença física robótica em situações que não trarão nenhum benefício à sua vida profissional, financeira e intelectual. Motivados têm sua privacidade respeitada, seu momento de lazer garantido e seu direito de descanso consumado. Motivados não precisam de cargos de confiança “cala a boca”. Motivados se valorizam como pessoa essencial no sucesso de qualquer empresa, mas não só nela. Eles entendem que a empresa pode até ficar, mas que sua vida uma hora acaba. Entendem que seu tempo deve ser pago porque, caridade não se faz para capitalista que visa lucro. Filantropia destina-se aos necessitados que precisam de ajuda para sobreviver.

Texto: Luciane Trevisan Leal

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Bispo Macedo e nossa Preguiça



Que tipo de sociedade queremos para nós? Quem são as pessoas que queremos como formadores de opinião?
Precisamos nos perguntar e responder a estas questões sempre que nos deparamos com certas aberrações que parece que estamos condenados a engolir. O bispo Edir Macedo, por exemplo, me provoca ânsia de vômito. Hoje li, em seu blog, um apelo pedindo doações para seu site, dizendo que os gastos com o mesmo são altíssimos, em torno de R$ 170 mil reais mensais. Sim, é isso mesmo! Eu disse R$ 170 mil mensais. Nós que temos blogs, sites e que trabalhamos com internet, sabemos que o custo desse tipo de serviço pode ser gratuito, e pode ao contrário, promover ganhos ao administrador. É um insulto à inteligência que este senhor já tão velho conhecido nosso, persista com tamanha cara de pau. Agora, problema maior, infelizmente, é saber que mesmo estando mais que provados os fins para essa dinheirama toda que o bispo recolhe nas doações, ainda há quem defenda essa pouca vergonha. Os defensores são os extorquidos.
Sabemos que em muitos casos, são pessoas de bem, que buscam genuinamente, e ingenuamente, por conforto espiritual. E sabemos também daqueles que parecem querer “barganhar” com Deus. Coisa do tipo “dou aqui, e depois ganho de lá”. Gente que doa ás vezes quase todo o salário mensal por que acredita em promessas do tipo: Quanto mais você contribui, maior será o seu retorno no futuro. Alimenta sua cobiça e fraqueza contribuindo com a ganância e esperteza alheias.
Postei em um site de notícias, há uns poucos dias, uma matéria sobre o assunto. Algumas pessoas não gostaram. Defendem seu direito de doar e acreditam estar sendo julgadas sem conhecimento de causa. Eu digo que ainda bem que vivemos em uma democracia e que da mesma forma que elas têm seu direito de doar o que quiserem eu tenho o meu direito de fazer minha crítica. E vou continuar fazendo, por que não dá para me calar diante de tanta vergonha. Eu afirmo. Não reclamem de nossos políticos corruptos ou da bagunça de nossas instituições. Nós brasileiros temos os líderes que merecemos, vivemos na pobreza que parecemos gostar. Por que somos capazes de pegar o salário de um mês e colocar nas mãos desse indivíduo, de compactuar com a enganação. Falamos de Deus, de justiça, de educação, mas entregamos de bandeja nossas economias nas mãos de um espertinho qualquer com o “dom da palavra” ao invés de usar esse mesmo dinheiro para investir na própria educação, por exemplo, e lograr um pouquinho mais de senso crítico. Mas é claro! Pra quê estudar, se alguém me diz que posso conseguir as coisas de uma maneira mais fácil, pagando a Deus por isso. Pra que dedicar anos de minha vida a uma sala de aula, se “conhecendo” Jesus (irresponsabilidade usar esse nome para este fim) eu terei tudo o que sempre desejei? E assim vamos seguindo…
Quem sabe não está na hora de buscarmos uma autêntica espiritualidade, que passa pelo reconhecimento de nossas reais limitações, do conhecimento da realidade, do que a vida pode de fato nos oferecer. Por que não entregamos o salário do mês, por exemplo, a ONGs preocupadas com o incentivo à educação?
Que tipo de sociedade queremos para nós? Quantos Bispos Macedo ainda vamos sustentar por pura preguiça? Pensemos um pouco nisso e comecemos de uma vez por todas a trazer para nós mesmos as responsabilidades por nossas derrotas. É a única forma de não precisar barganhar com Deus.

Texto: Luciane Trevisan Leal

Obs: Há um vídeo muito antigo sobre o assunto. Tentei colocá-lo mas não consegui. Deixo o link abaixo:






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Permanência: sobre a ótica moral

Juízo Final - Michelangello

Temos enraizado na cultura ocidental uma idéia de permanência, valorização da tradição e forte resistência ao novo. Pode parecer absurdo falar disso dada a maneira que figura a ciência atual, o pensamento contemporâneo e o desenvolvimento da própria tecnologia. No caso desta última, por exemplo. Cada vez mais obsoletos estão as tantas opções de eletrônicos disponíveis, os quais hoje julgamos essenciais à nossa vida. O capitalismo, com sua sociedade de consumo voraz, nos faz reféns da indústria da modernização contínua. Buscamos sempre os modismos. Gostamos, e de certa forma precisamos estar atualizados com as últimas novidades. Então parece estranho falar de resistência ao novo em uma sociedade que busca constantemente estar sincronizada com as últimas tendências. Mas vejamos. Talvez pareça menos controverso se entramos no campo da moral e da ética.
Há uma certa permanência de atitudes que parecem não estar condignas com o contexto atual. De forma a não perder o fio da meada ou me estender demais, cito o caso específico da religião, no que se refere a pensar moral e ética. É sabido que seja qual for a escolhida, a religião em muitos casos não deixa de simbolizar apenas a melhor saída para os conflitos gerados por aquilo que não se compreende bem. De certa forma, uma fuga da realidade, um lugar confortável para vislumbrar o inexplicável. Não falo aqui de espiritualidade, mas da vivência dogmática que a religião busca promover. O que quero dizer é que: ser religioso está longe de significar uma existência espiritual de fato. Dogmas inquestionáveis, regras rígidas e autoritárias sobre a conduta humana, não levam indivíduo nenhum ao auto questionamento, a pensar de maneira transparente sobre sua atuação na sociedade e com seu próximo. O que ocorre é que na busca por atenuar o peso das angústias e dissabores da vida, buscamos “alguém” com quem dividir ou até mesmo entregar definitivamente o fardo que não damos conta de carregar sozinhos. Passamos às vezes a vida fazendo bobagem atrás de bobagem, e esperamos que alguém possa se responsabilizar por elas. Para não repetir as frequentes “falhas de conduta”, nos rendemos à dogmas, e imaginamos que seguir certas regras impostas de comportamento, vai nos fazer pessoas melhores. Ledo engano. Resta a todos assistir de camarote aos fanatismos que levam ao preconceito e a intolerância. De vítimas de uma sociedade confusa, passamos a detentores da mais soberana verdade. Antes julgados, agora juízes. O que de fato ocorre é que somente transferimos nossas falhas de caráter para um outro foco. Nossa conduta continua intransigente frente aos demais. A predisposição a olhar apenas para si, o que nos leva a realizar todas as grandes besteiras no decorrer da vida, não desaparece com a conduta moral dita exemplar, só encontra um outro lugar de morada.
Não só no aspecto religioso, mas em qualquer setor de organização social, isso ocorre com qualquer um que queira subjugar o outro à sua verdade. A permanência, a qual me referi acima, está aí. Desde que o mundo é mundo sempre houveram os subjugados e os donos da verdade. Nos comportamos dessa forma desde sempre. Subjugamos o outro às nossas verdades morais, me parece que mais para exercitar nosso egoísmo – fazendo o outro viver da maneira que achamos justa – do que para expressar um desejo genuíno de uma sociedade mais transparente e altruísta.
A meu ver a única maneira de modificar essa realidade é pela educação. Abertura para o mundo no lidar com as novas formas nas relações. Compreender de maneira mais abrangente a dinâmica das relações na sociedade atual é deixar a inércia de um discurso moralizante ultrapassado. Leitura, informação, construção de um senso crítico que transponha os dogmatismos, é a saída para entender o outro e nós mesmos como atores em nosso tempo. A ignorância nos transforma em seres intransigentes e nos distancia. O conhecimento nos faz mais flexíveis e nos aproxima.

Texto: Luciane Trevisan Leal
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Sobre a Transição e Confusão Feminista



A transição dos tempos traz um fardo pesado às mulheres: a impossibilidade de lidar de forma clara com as heranças de identidade e os apelos do mundo contemporâneo. Hoje, a supremacia da privacidade, da exaltação do “ser individual”, não pertence tão somente ao sexo masculino. As conquistas das mulheres ocidentais no decorrer dos dois últimos séculos, corroborou atitudes de afirmação da personalidade que, para o deleite dos machistas de plantão, evidencia uma confusão na prática dos papéis sociais para nós mulheres. Gosto de me colocar como um bom exemplo desta realidade. Eu, como uma mulher típica do meu tempo, vivo um período de transição que me faz pensar ser um dos mais confusos, ao menos na história do meu sexo.
Cada vez mais se vê nos dias atuais mulheres independentes, muitas bem sucedidas… sozinhas. Lê-se nas mais variadas interpretações desta atual conjuntura, que as mulheres de hoje são mais exigentes que outrora. Me parece que essa explicação simplista não abarca a profundidade e importância do que vivemos em nosso tempo, para as relações sociais, principalmente no que tange às relações de gênero.
As mulheres, em muito pouco tempo, modificaram sua forma de ver e se colocar no mundo. Isso é um fato. Mas ao meu ver a realidade dessa maneira de ser e estar é muito mais complexa que a realidade aparente dos olhares menos observadores. A mulher deste tempo está condicionada às facetas das singularidades exaltadas tanto quanto os homens. Mas a busca por esta individualidade excessiva pesa em nossas vidas, em muito maior escala, que para nossos opostos em gênero. E posso dizer, mesmo sem querer parecer feminista, mas de uma certa forma deixando às claras essa subjetividade, a “culpa” está na limitação do homem de nosso tempo que, para sua própria infelicidade ou descontentamento, não consegue acompanhar as transformações que redundam no que estamos nos tornando hoje. Nós mulheres saímos de uma realidade de submissão para uma outra que nos coloca em um lugar que causa medo e confusão aos andarilhos errantes. Por mais incrível que possa parecer, mesmo que inconscientemente, a maioria dos homens ainda confundem independência com falta de doçura ou afetuosidade, se afastando em disparada daquelas que assim lhes aparece. São ainda poucos aqueles que reconhecem nossos talentos e posições diante da vida. Reconhecer nossos belos atributos (e não falo aqui de seios e bundas), é quase um atestado de fraqueza para estes homens.
Onde está o problema dessa nova abordagem? Ao menos para nós mulheres são muitos. A idéia de mulher independente acaba por confundir-se com a mulher que parece não precisar de determinados cuidados. A mulher de hoje dá conta de segurar qualquer barra “passando” a impressão que não precisa de seu companheiro. O que entendem nossos companheiros do sexo oposto é que temos poucas fraquezas ou nenhuma (ou não podemos tê-las), já que nossa opção é tomar as rédeas da própria vida.
Aos poucos conseguimos nos fazer notar como “seguras de si” e, por ironia do destino, acho que hoje tentamos fazer um percurso inverso: Queridos homens. Não somos iguais a vocês. Não perdemos a nossa doçura, nossos instintos naturais, nossa necessidade de nos sentirmos acarinhadas e cuidadas. Não perdemos o nosso direito à debilidade por que devemos ser fortes para enfrentar as imposições de nosso tempo. Apenas colocamos em voga a nossa vontade de nos sentir admiradas por algo além de nossos atributos sexuais ou domésticos. Uma vontade que não deixa de estar conjugada à necessidade de ser tomada com leveza, de querer proteção ou colo.
Pobres mulheres lindas, resolvidas ou nem tanto, bem sucedidas ou no caminho do sucesso e ainda assim ardentes de paixão e desejosas de cuidados. Pobres homens reféns cegos da ortodoxia.
Texto: Luciane Trevisan Leal

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Reinventar-se?

Homen Vitruviano - Leonardo Da Vinci




Por que lutar contra sua própria constituição? É uma questão que gostaria de saber responder. Talvez, esta batalha, esteja no cerne da transição perene que é a vida humana: O homem imbuído de si mesmo, constituído da fragilidade ante suas crenças, se questionando, se refazendo, reconstituindo-se a todo momento. Em alguns casos, acredito não ser absurdo dizer que esta transição nos coloca próximos aos limites da loucura. A loucura como inadequação de viver num tempo que parece não ser seu. Uma confusão de ser e estar onde não se quer.
Talvez para nós do início do século XXI, reféns da velocidade das transformações em todos os setores da vida, seja mais difícil que para nossos antepassados, entender o nosso lugar no tempo e no espaço. Ocupamos um lugar, que muitas vezes não é nosso, pela impossibilidade de encontrar mecanismos para fazê-lo nosso de fato. A velocidade das transformações do tempo atual nos impõe uma busca incessante por um espaço onde caibamos, na medida em que, quanto mais perto chegamos da crença de tê-lo encontrado, mais visível nos fica o quanto ele está distante. Isso ocorre porque, o mundo caminha em um velocidade sempre superior àquela que podemos acompanhar. Grande quantidade de informações, muitas vezes desencontradas e inúteis, tendo a tecnologia à serviço do conhecimento mas também de muita porcaria; conexão com um mundo globalizado e desconexão com a vivência do que está ao alcance; desigualdade material aumentando na mesma medida em que crescem as propagandas pelo consumo desenfreado na rede e nos meios de comunicação; valores relativizados e esquecimento do simples; desprezo pelo espanto, pelo encantamento; apelo pelas relações superficiais e maior comprometimento com o ego e com a competição.
A tamanha velocidade com que as mudanças ocorrem nos leva a chegar sempre a um ponto onde já estamos atrasados. Um objetivo, quando alcançado, já não produz significado, já que há sempre algo novo para ser colocado naquele lugar. Passamos então a acreditar em uma idéia de vida sem sentido. A busca por este sentido, certamente subjetiva, vinculada às nossas percepções de ser e se colocar no mundo, perde as referências mínimas.
Como não conseguimos dar conta do que somos e de onde estamos ou queremos chegar, e tudo nos parece vazio de significado criamos mecanismos de fuga para escapar daquilo que não podemos apreender. Nos distanciamos, fugimos do que não acompanhamos, nos isolamos dos outros. Transformamo-nos cada vez mais em pessoas absurdamente individualistas, impondo limites equivocados ao privado. Por fuga! E unicamente por ela.
Em um momento onde essa individualidade chega ao ápice na prática cotidiana, viver em sociedade tem se transformado no desafio do momento. Na grande maioria das vezes, entendemos que nossas relações são possíveis somente através do uso de máscaras e caímos no vazio da falta de certezas, objetivos e autenticidade ao lidar com o outro. Nos rendemos ao ostracismo para escapar da superficialidade de nosso tempo e, ao mesmo tempo, contribuímos com sua perpetuação, já que ajudamos a tecer os modelos de vida cotidiana que abominamos.
De qualquer maneira, algo curioso se faz evidente. A mesma incapacidade que temos em conviver em meio às relações que nos atordoam, é identificável no empenho de se realizar o ser exaustivamente solitário. É curioso e ao mesmo tempo óbvio. Somos o que somos, por que estamos nos relacionando com nosso entorno e até para não querer fazer parte dele precisamos nos perceber nele. A incapacidade de se definir essa linha tênue entre a relação com o mundo e com nós mesmos é o que nos sabota. Nesse sentido reinventar-se pode na verdade significar fazer desmoronar parte do edifício que construímos ao longo de toda uma vida.
Texto: Luciane Trevisan Leal




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Sobre a Hipocrisia

O Grito - Edvard Munch

( Faz um ano e meio que isso foi escrito. Não me lembro exatamente o que me aconteceu. Mas dá pra notar que estava péssima nesse dia !!!)

Essa turba de egocêntricos move-se envolta em suas máscaras de doçura e grandeza enquanto a avareza de sua alma é encoberta. Na esteira de suas manifestações públicas se esconde a primazia de suas posições: seus preconceitos, suas ambições, sua sujeira interior, ficam ocultas no invólucro de aparências que a imbecilidade alheia entende por beleza ou leveza de ser.
A individualidade, tão exaltada nos últimos séculos, deixou um legado de egoísmo, mentira, covardia e ingratidão. E a Era da Privacidade produziu e continua a produzir uma demência individual que cria indivíduos totalmente voltados para si em detrimento do outro, da natureza, do futuro do planeta. A busca por ajuda emocional confirma a agonia de quem não consegue lidar com essa faceta de nossos tempos: a exaustiva consagração do ego. Que Nietzsche me perdoe, mas a morte de Deus, pelo que se vê, não trouxe benefícios para a humanidade. Somente manifestações do politicamente correto não dão conta da construção de atitudes coletivas que poderiam frear a destruição do planeta e o extermínio da alma humana. E quando penso o aniquilamento da alma, quero dizer alma na essência de seu significado. Essência!!! No mínimo desprovido de razão falar de essência no tempo do relativismo. Sem querer reduzir discussões filosóficas de mais de vinte séculos, a essência humana pode ser vinculada ao significado de essência em si, pureza? Mas como tratar de uma possível profundidade da alma humana, essencial e pura, em um tempo onde o relativo norteia as relações, a ciência e os valores morais e éticos?
A pureza de alma está longe de ser pleiteada. Nós, indivíduos do mundo contemporâneo, estamos muito preocupados com nossos quereres prosaicos, o que nos faz nadar na direção da corrente... de águas geladas, rasas... mas abundantes.
O trivial de hoje talvez seja o absurdo de amanhã. Pensar assim é uma insistência mental positiva. Há que se seguir uma lógica que não seja esta do relativismo contemporâneo. Talvez por que este último, é perceptível, não está dando certo. Ou por que há mesmo uma necessidade de se recriar diretrizes básicas que possam proporcionar vida no seu sentido mais completo. A destruição da alma promove a destruição do ser no mundo e do mundo que acolhe o ser. Uma reafirmação ética e moral (não falo de moralismos) talvez possam reduzir o estrago. Esteja essa reafirmação na religião, no direito, ou esteja ela nos vários setores que compõem a organização social como um todo, ela é urgente.

Texto: Luciane Trevisan Leal

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