A Imagem
Essa imagem que já não te apraz, vai que se desfaz?
Num milésimo de tempo… não se recupera mais
Essa imagem de si que falo, que pouco te participa de fato,
Certamente para os outros, te dignifica no ato
Nela tu não és por inteiro
mas para o mundo é o que há de verdadeiro.
Desfazer-te dela agora é grande erro,
é através dela que a ti consideram com esmero.
Dada à morte, pode tornar-te refém… da má sorte
Já que ela é teu suporte, teu passaporte.
Por mais que a tenha edificado num engano primeiro
Que te faz agora revogado, anulado, quase que por inteiro.
Conserto não há, o desastre já está
Da ilusão que erigiu esconda o desencanto que emergiu
É o melhor a fazer, conveniente aos outros parecer
Assim ninguém lê, o que em si, nem você direito vê
Texto: Luciane Trevisan Leal
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Poema da Vida Contida
Se passo desapercebida reclamo do engano
de quem não me lê, não me vê, não me crê
Mas sinto tensa a minha postura às avessas
o impacto de um fim que é causa, e também pausa de mim.
Quando venho chegando, me apresentando
me sinto me entregando demais, me mostrando demais… contrariando demais
Minha estrutura incontida me acusa, causa recusa
Incômodo atiça, à tolerância necessária… preguiça
É que com a regra me indisponho, nela me contraponho.
E todos notam minha destemperança, e anotam para cobrança
Ainda assim insisto no confronto com meu tempo, sem calma, mas com alma.
Amando o que me seduz e desprezando o que me reduz
A loucura me vê e bate palma, a normalidade quer resgatar e mata minha alma.
Homens-deuses construídos me dizem e negam, o que meus pedaços mortais contradizem e agregam
Me vejo entre eu e eles, perdida, desiludida. Alguns podem dizer até possuída.
Mas considero demônios que inventam e atacam, verdades que me inflamam e arrematam
A medida dos homens, sua balança, minha compreensão não alcança
E passo pelos vícios, me entregando aos solstícios.. e à suplícios.
Vivendo com medo do corte da vida, do negro da morte, do norte de minha sorte
Negando a paz que minha mente pede e minha incapacidade me impede
Convenções já não me cabem mais, devo dizer, normalidade disfarçada me esvazia o ser.
Então, da enfermidade que pensam me definir, escancaro a ferida. E crio o poema da vida contida
Exercito centralizar o passo, para tentar viver bem… o descompasso
Que tenta se encerrar numa sensação de contínua partida, que me abre ao mundo, mas também me leva ao fundo.
Me fixo então na esperança, da criança, que tudo alcança
Ainda me surpreendo, me compreendo e pouco me repreendo.
Deixo a paixão ainda mover, absorver, e no meu caminho por completo me envolver
Para assim deixar de me conter, não me suspender, e simplesmente viver e ser
Texto: Luciane Trevisan Leal
(Poema com registro de propriedade intelectual)
(Poema com registro de propriedade intelectual)
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Trata-se de outra
Entenda. Eu não sou o que escrevo, não ao menos na vivência do cotidiano fantástico.
O dia pós dia me serve de fuga, quando não mais me sustento no meu enclaustro
Ás vezes afastar-me de mim traz seus benefícios,
na medida em que descanso do meu inteiro, que me causa imensa fadiga.
Se sua demanda é pela pessoa das frases elaboradas e não contidas,
renuncie à essa ideia!
Tiro férias de minha profundidade, na maioria de minhas relações.
Seria insuportável para o outro, o tempo todo de minha inteireza.
A pessoa de seu desejo está na reclusão, no isolamento de seu cárcere privado.
Aquela que vê se contem na necessidade do meio, é outra no inteiro.
Não posso me envaidecer pela sua admiração, já que em realidade me compadeço de sua ilusão.
Pois seu entusiasmo está para muito além de minhas possibilidades de contrapartida.
E o que me resta é me compadecer de sua decepção, no momento que esta certeza vier à tona.
Veja. Meu amor por você será sempre restrito, e incessante aos diversos.
Isso te assusta? Não menos espanto me causa!
Os diversos não são mais que as manifestações que me tiram do chão...
que poderão não ser suas demonstrações de si.
Obviamente que serão, certas vezes, suas afeições.
Outras vezes até as imaturidades que emanam de seu charme.
Mas o que me envolve na totalidade está para muito além do alcance de nossas consciências.
Os enígmas que me cercam são meu lugar de dúvida, e também o refúgio que me encanta.
Um lugar que não é só seu ou meu, mas aldeia de todos.
Tantos e tantos sejam os mistérios menores que me queira apresentar,
estes que pretende construir na tentativa de satisfazer minha ambição pelo desconhecido...
Menor será minha gratidão por esta tentativa que penso infundada.
Nenhum mistério pelo qual queira me conduzir será tão grandioso quanto aquele em que me encontro.
Ouça, você que deseja aquela que se constrói na escrita:
quando eu me permitir meu absoluto escapar, a quase tudo causarei desajustes
Terei menos paixão por você do que pelo pensamento e pela música
Poderei resistir a você, mas nunca resistirei à completude do que me cerca
Terei maior desprezo às exigências sociais que me fizer, que ao desastroso resultado por não segui-las.
Farei maior uso das minhas experiências pessoais e menor questão de suas críticas a elas: construtivas, ou não.
Darei maior valor ao que construí e às certezas que pretendo desconstruir.
E nunca, veja bem, nunca,
à negação dos meus valores, que você tentará consolidar, porque não serão os seus.
Me permita te chamar de louco se ainda assim quiser o meu outro que lê.
Contente-se com o habitual, do dia a dia, sem promessas de êxtase com novidades infindáveis.
Será seu bem, seu consolo.
Nem eu suporto por tanto tempo, o que ultrapassa o meu ordinário.
Texto: Luciane Trevisan Leal
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