Maioridade Penal: Teoria X Prática




É claro que para alguns há de fato uma vontade genuína em informar, apresentar fatos por outro ângulo, demonstrar que as questões da sociedade não são tão simples como parecem e que há uma teia complexa de relações históricas que construíram o que hoje assistimos. Mas acho que há um problema dos grandes aí. A esmagadora maioria que se engaja em determinadas causas (como esta, de querer negar a diminuição na maioridade penal) não sabe nem do que está falando ou o que está defendendo, e parece querer mais é fazer a linha do contra ou no mínimo no pior estilo “eu tenho mais conhecimento de causa porque estudo isso ou aquilo” Sem querer desmerecer as pesquisas de ninguém. Mas muitos títulos por aí vão sendo rasgados com certas sentenças proferidas. Vejo pelos comentários nas redes sociais.
Que vivemos em um país sem oportunidades, imersos em uma desigualdade social estratosférica, que não investe o mínimo aceitável em educação, parece óbvio. Acho que precisamos que nos contem outra novidade, não é mesmo? Até quando vamos defender as mesmas “causas” repetindo os mesmos argumentos?
O fato na prática (vamos deixar de lado um pouquinho nossas teorias de esquerda)? Diminuir ou não alguns aninhos na maioridade penal não modificará a sociedade em termos de justiça social. E ingenuidade é acreditar que manter a coisa do jeito que está com campanhas desse tipo podem fazer alguma coisa na direção de mudar a estrutura histórica da desigualdade social no Brasil. Campanhas como essa, que defendem que não se mexa na maioridade penal, só impedem que jovens suficientemente assertivos no que refere a tirar a vida de outra pessoa, por exemplo, respondam pelo crime que cometeram. Parabéns para nós! Mantemos mais jovens em instituições para menores “infratores” durante alguns poucos anos e depois os lançamos de novo na sociedade desigual que tanto criticamos, que não mudou absolutamente nada. A sociedade que não conseguimos modificar porque insistimos manter e repetir as mesmas crenças e ideologias.
Mais uma coisa que fico me perguntando. Quem é que vai contribuir na reintegração social destes jovens, já que a cadeia não o faz? Serei eu ou vc? Como nos disporíamos a fazer isso? Não só governos são responsáveis por essa reinserção, não é mesmo? Sociedade somos todos, afinal. Então... Será que estamos dispostos a sair da comodidade da poltrona onde escrevemos nossas teses?   

Redigido após a leitura texto abaixo


RAZÕES PARA DIZER NÃO À REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

Porque a desigualdade social é uma das causas principais da violência.
Porque o dia-a-dia da vida dos/as adolescentes e jovens está marcado pela violência da prostituição, do crime e do tráfico de drogas e com o agravante da ausência de perspectiva de renda decente.
Porque ainda são poucas as iniciativas do Poder Público, das
 Instituições e da Sociedade na proposição e execução das Políticas Públicas para a juventude.
Porque sem a elevação urgente e necessária da escolaridade dos/as jovens empobrecidos, o Brasil não restabelece o diálogo com o futuro, posto que somente um de cada dois destes jovens estuda atualmente no país.
Porque o sistema penitenciário brasileiro não tem cumprido sua função social de controle, reinserção e reeducação dos agentes da violência, ao contrário, tem demonstrado ser uma escola do crime.
Porque nenhum tipo de experiência na cadeia pode contribuir para o processo de reeducação e reintegração dos jovens na sociedade.
Porque os crimes cometidos por adolescentes não atingem a 10% do total dos crimes praticados no Brasil.
Porque já existem penas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com a aplicação de medidas sócio-educativas.
Porque os adolescentes e jovens precisam ser reconhecidos/as como sujeitos desta sociedade e, portanto, merecem cuidado, acolhida, respeito e, principalmente, oportunidades.

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Sobre a Tolerância



Pergunta que todos nós fazemos: Como fazer meu nível de tolerância aumentar? 
Pergunta que em todas as ocasiões deveríamos nos fazer: Quais as mudanças positivas reais ocorrerão se meu nível de tolerância aumentar?
Pergunta que deveria suceder às duas anteriores sendo conclusiva, mas é habitualmente, colocada em ordem primeira: o que devo tolerar?

Texto: Luciane Trevisan Leal
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Caso Thor Batista: Ser rico no Brasil é um problema...



Algumas considerações

  1. Vivemos num país de corruptos o que não quer dizer que todos o sejam.
  2. Nem todo rico é desonesto e paga propina para se livrar do que quer que seja. Nem todo pobre é honesto ou anda sempre “na linha”.
  3. Nem todo rico é imprudente. Não há nenhuma relação lógica entre riqueza e imprudência, ou pobreza e prudência.
  4. Pobre tb bebe e pode sim atravessar com a bicicleta na frente do carro do rico e famoso.
  5. Não há nenhuma razão para acreditar que o fato do cara ser rico e famoso anula a possibilidade do cara pobre ter bebido e se jogado na frente de seu carro.
  6. Se eu for atropelada na Washington Luis por um pobre desconhecido, se ele prestar socorro e descobrirem que eu estava com álcool no sangue, ninguém vai dar à mínima para o infeliz que me atropelou e matou, nem construirá as mais terríveis teorias conspiratórias.
  7. Thor poderia ser vc ou eu (pobres e certinhos). O ciclista da rodovia poderia ser nosso filho (bêbado e todo errado).
  8. Nosso país só irá para frente quando o brasileiro deixar de fazer a linha: somos os pobres, vítimas dos ricos.
  9. Ao invés de nos preocuparmos tanto com o filho do rico, quem sabe não procuramos nos inteirar mais sobre os grandalhões que escrevem nossas leis e que usam nosso dinheiro para toda ordem de roubalheira.
  10. Gostaria de ver brasileiros discutindo em quem votar e porquê. Mas isso nunca vai acontecer. Sabem por quê? Porque a idéia pronta e acabada é mais fácil de ser disseminada, além de ser mais divertida. Ninguém vai se dar ao trabalho de pesquisar porcaria nenhuma para votar. Nós só gostamos de fofoca sobre ricos e famosos.
  11. Fazer a linha “estou indignado” e usar qualquer bode expiatório rico para isso é mais fácil do que pensar e se indignar de verdade. 
  12. Paremos de brincar de indignação. 


Luciane Trevisan Leal


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Artigo: A Busca pelo Sentido


Existe uma verdade a partir da qual deveríamos nos guiar? Há uma conduta moral acertada, um valor essencial a orientar nossas ações pelo mundo?
A cada tempo no caminhar da existência humana houve uma verdade a orientar a conduta. Nos dizem a todo tempo como somos e como devemos ser. Parece precisar existir na tessitura do espaço tempo que acomoda nossa existência uma verdade fundamental, necessária, um elemento primordial qualquer que propicie uma convivência harmônica em sociedade.
Um mundo sem ordem moral parece sem finalidade e sentido. Mas e se não existir de fato um sentido para o mundo, o que direcionaria ou orientaria nossa conduta? Sem uma orientação, não se trataria então de um mundo sem esperança e niilista. O absurdo de um mundo sem ordem moral é possível?
Estas questões, muito atuais, são ainda questões que repetem estruturas antigas e estão na base dos significados que construímos e de nossa forma de ser e estar no mundo.
Podemos procurar um elemento qualquer que nos ajude a criar os códigos morais de conduta universais que tanto desejamos e que parece mesmo que necessitamos. Mas talvez esteja no resultado da crítica a essa busca, a essência de uma ética natural, forjada na abertura para o mundo que somente a crítica a ele próprio é capaz de criar. Uma crítica à própria racionalidade submersa no tempo que abriga nossa subjetividade. 
O texto aqui redigido tem a intenção de mostrar, resumidamente, como no decorrer da história ocidental sempre houve uma tentativa de essencializar o ser humano, o que parece mais uma saída pela via mais fácil, para se criar um fundamento para existência e sentido para um mundo onde se possa ter esperança, em oposição ao niilismo que insiste aterrorizar.


Nossas Heranças


Os filósofos pré-socráticos encerravam na razão a maneira correta de enxergar a mundo. Somente a razão o explicaria. Mas Platão alerta que essa realidade é uma ilusão, o mundo na verdade é equívoco, sombras (crenças, certezas, preconceitos) que vemos e vivenciamos, aprisionados em uma caverna. A compreensão de como são as coisas, efetivamente, somente é possível fora da Caverna, está em algum lugar que para Platão, é o mundo das idéias, das formas. Somente a saída da caverna apresenta essa realidade que aí sim, orientará, no retorno à caverna, a atitude ética capaz de construir uma ação correta no mundo.
Para o filósofo o mundo das idéias carrega consigo as verdades inspiradoras dos valores que devem guiar nossa existência, valores desconhecidos, cujo papel do filósofo é mostrar o caminho para sua descoberta. O filósofo seria aquele a nos ascender ao conhecimento.
Nesta ilustração há uma separação entre o mundo aparente e o mundo real, onde se considera um processo de elevação em direção ao conhecimento, que carrega em si, o conjunto de valores a serem aplicados no modo de ação correto diante do mundo. Estes elementos de um processo que nos direciona ao conhecimento dos valores adequados eticamente têm total importância no cenário que está por vir, quando acaba se fundindo com a visão de mundo judaico-cristã.
Santo Agostinho faz uma releitura de Platão[1] apontando uma verdade fundamental acessível a todos para a qual devemos voltar à atenção, verdade a orientar nossa ação no mundo. O sentido, a lógica dos valores a serem os legítimos modelos de comportamento não são sabidos por conta de uma ignorância da verdade. A verdade, numa alusão clara ao pensamento platônico, se converte na revelação do mundo espiritual cristão. Uma rede de significação que tem como base de apoio agora a figura humana do Cristo, que ocupa o anterior papel do filósofo como caminho para o conhecimento. Cristo suplanta o mundo aparente do pecado (mundo real), apresentado a moralidade implícita na verdade (mundo das idéias), produzindo assim as ações da verdade revelada e um sentido para a existência.
O homem da modernidade que se entende em oposição aos elementos religiosos da herança medieval, parece representar a mesma estrutura descrita anteriormente, mas refletida agora no mundo do saber científico e das ideologias que vigoram. Neste momento as incertezas se voltam para o sujeito, novo limiar da verdade, quem irá de fato produzir e contribuir para o significado do mundo e da verdade. Na modernidade há uma forte construção de identidade e sentido: um cidadão tem que ser justo, trabalhar, respeitar a lei para contribuir com as ideologias democráticas, de justiça e liberdade, somente assim produzindo os valores adequados a uma sociedade mais igualitária, democrática. Um “novo” velho sentido para o mundo, que as democracias modernas irão absorver.
Estas ideias que parecem repetir fundamentações muito antigas caem na desconfiança na contemporaneidade, alçando ao patamar do desencanto o projeto da modernidade, onde dúvidas transitam no mesmo espaço das ideologias democráticas e de todo o conhecimento científico adquirido. No pós-guerra essas dúvidas ganham força e o mundo contemporâneo começa a se ver à esgueira de pilares construídos no decorrer da história que começam a desmoronar. Justiça, liberdade e democracia? São de fato verdades ou meras possibilidades, muito relativas, de um sujeito que tenta avidamente produzir sentido para sua existência?
Talvez a maior herança da modernidade seja de fato o apelo ao indivíduo, à subjetividade que caminha lado a lado à história. Entender-se como sujeito que pode agir em prol de um mundo melhor, por ser ente que existe porque pensa, porque é, deixa na herança cartesiana um tom quase poético. Nossa racionalidade como prova de existência e todas as possibilidades que essa elevação nos apresenta. Porém pensadores como Shopenhauer e Nietzsche, tidos como filósofos da suspeita[2] desenham um novo arcabouço para o sujeito racional, levando em conta outras facetas de nossa subjetividade. Não seríamos também constituídos de vontade, instintos, além do bem e do mal? Até que ponto somos capazes de lidar com nossos afetos, com os desejos de nosso corpo? Não haveria uma série de coisas ocultas por trás de nossas moralidades com as quais não conseguimos lidar? Será que a genealogia da moral que optamos por seguir os pressupostos, sem questionamentos, é efetivamente a totalidade de nossas vontades?  Caso não seja, não estaríamos assim, falsificando a vida? Sabemos porque fazemos o que fazemos ou somos somente dominados pela lógica de nosso tempo?
A crise da cultura que estas desconfianças provocam, reascendem questões sobre se há de fato uma verdade, pressupostos morais e éticos passíveis de acomodar nossas relações sociais ou mesmo alguma consciência individual do ser. Será mesmo que há alguma finalidade, algum sentido para o mundo que construímos e que nos constitui? Se não há finalidade, como lidar com essa verdade? São as principais questões que hoje nos colocamos.
Mas e se não houverem de fato princípios ou fundamentos, ou mesmo se eles existirem, mas nós não possamos desvendá-los, como prosseguir?

Sofrimento e seu significado

Os gregos encaravam a tragédia da vida com poesia. Nós encaramos a tragédia da vida inventando significados para ela. No decorrer da história ocidental, principalmente, da cultura judaico-cristã, dar sentido ao sofrimento parece a resposta para todas as dúvidas. O sofrimento é penalização de uma verdade que não é compreendida. É quase uma entidade viva a se deparar com o homem e desafiá-lo a escolher o plano de Deus, a dimensão espiritual para além da vida, em contraposição aos desejos do corpo. Uma escolha que re-significa a existência, na possibilidade de existência futura nas promessas do além-vida. E mesmo que não nos voltemos para o viés religioso, o sofrimento é justificado, na escolha pelas causas justas do mundo. E assim inventamos sentido e reafirmamos as mesmas estruturas, sem imaginar a menor possibilidade de um mundo sem finalidade. Porque pensar um mundo sem finalidade é não encontrar justificativa para o sofrimento, o que seria absolutamente insuportável.  
O último homem de Nietzsche é incapaz de criar, amar, desejar, e apenas inventa uma verdade artificial para se enganar a cerca dela. Mas a questão que se coloca é: e se o sentido da vida desse último homem é viver exatamente desta maneira? Será que ele é de fato incapaz de ser diferente, ou somente um covarde a não encarar de frente suas escolhas? Se caso optasse por assumir a totalidade de suas possibilidades, como diria Heidegger, como viver com elas num mundo onde as redes de significados são tecidas por linhas que dificilmente se arrebentam? E mesmo que ele queira pagar o preço: até o preço parece ter sido capitalizado pela ordem do mundo.
Até mesmo o sem sentido do mundo parece estar imerso em uma ordem de sentido que  paira sobre nossas cabeças, tendo como resultado somente uma possibilidade de fato: a dúvida. É somente por intermédio dela que conseguimos formular a crítica necessária capaz de nos tirar do abismo em que nos colocamos: o abismo da ocupação demasiada com as redes de significados que construímos ao longo da história, nos aprisionando, na história de nosso tempo presente.
Pensar o tempo presente é pensar as especificidades de nosso lugar. É entender como construímos uma cadeia de significados que nos trouxe onde estamos. E o que parece nos mostrar as questões desse tempo, e ainda as futuras histórias do tempo presente, ou as histórias do tempo presente do passado, é que nossa racionalidade tão festejada, condição que parece ser meramente evolutiva, se abre no tempo de um conhecimento específico para nos chamar à compreensão de nossa condição terminal. O tempo presente e todas as suas facetas implícitas em sua história parece ser somente um emaranhado de benefícios ou malefícios produzidos por um entendimento racional da realidade que na verdade quer nos desviar por um trajeto de fuga, do que precisaria ser o objeto a ser pensado: a inexistência. A falta de significado que nos coloca todos os dias diante do mergulho no consumismo, na enlouquecida gana por informação, no desprezo à ociosidade tida como o avesso da produtividade, num mundo onde tudo tem que acontecer cada vez mais rápido, funciona como maneira de dar significado à existência, mas parece mais uma forma de aplacar a angústia da verdade da inexistência. A inexistência que se transfigura no vazio da existência em si.
Talvez sempre tenhamos vivido o niilismo, por estarmos amarrados e amordaçados pelo desejo do sentido, reprimidos pelo monstro da moralidade, da normalidade, da simetria e da ordem inventada, que insiste acompanhar nossa racionalidade pelo tempo. Nosso maior monstro parece ser o desejo secreto de ser “normal", de obter esse bem moral. Digo bem moral porque, tanto os bens capitais quanto os morais estão na mesma esfera no que diz respeito aos desejos humanos. Uma esfera de sentido que inventamos para lidar com a falta de sentido, com o niilismo que parece sempre ter estado alí. Nessa esfera de busca por sentido, ser apenas perde a razão para dar lugar à sociedade do ter: sejam bens morais, ou bens materiais. Precisamos ter simplesmente, porque não sabemos quem somos e o que fazer com esse desconhecimento.

Nossos demônios somos nós

Buscamos a simetria em todas as coisas. As próprias religiões monoteístas, nas culturas do mundo inteiro, identificam o divino à ordem e à simetria. A estética da ordem natural das coisas, a beleza do mundo natural, direciona nosso pensamento assim como nossa ciência, a buscar a organização perfeita, seja no cosmos, seja na vida prática em nosso planeta. Parece bem da verdade então que a assimetria incomoda, e muito! E com nossas relações e construções de significado, não poderia ser diferente.
Porém, parece bem claro que todas as implicações do ser humano como multiplicidade e as divergências que ela causa nas nossas produções de significado, nos levam a observar um mundo cada vez mais assimétrico. Estaria nessa verdade a falta da própria verdade, de fundamento e finalidade para a nossa existência? Uma falta de sentido com qual temos convivido desde sempre?
O maior monstro que nos acomete é nossa tentativa exagerada de se enquadrar na normalidade, na simetria da moral, dos valores e verdades que viemos construindo no decorrer de nossa história. Pensar em se desfazer de todas as nossas construções possivelmente seria um tiro no próprio pé, uma briga com a própria constituição, uma guerra sem fim com a cultura e a própria subjetividade amarrada a ela. Se isso fosse totalmente possível, certamente nos levaria a uma desordem e falta de sentido ainda maiores. Porém, somente essa disposição, que é uma tentativa sutil em meio ao conjunto complexo que somos, é o que de fato transforma o mundo fazendo dele essa infinidade de possibilidades que cria o sentido na falta de sentido.
Ter em mente que até nossa crítica é a crítica do homem de agora, imbuído das demandas desse tempo, parece a saída para uma sociedade mais viável em termos de convivência, já que a dúvida é a fonte inesgotável de criação de possibilidades e compreensão das diferenças que carregamos. Nos compreender imersos em mundo sem verdades prontas e acabadas, nos ajudaria a construir uma ética que mesmo em um mundo sem sentido, promoveria bem estar no encontro das diferenças.


Texto: Luciane Trevisan Leal


Inspirado na provocativa palestra do Prof. Leandro Chevitarese (PUC Rio/ UFRRJ), no Café Filosófico em 02 de Junho de 2011.


[1] Nietzsche ressalta que há uma cristianização do pensamento platônico. Em Agostinho aparece a mesma estrutura, que separa o mundo aparente do verdadeiro, sendo agora o mundo aparente o do corpo, do pecado, e o mundo verdadeiro as certezas cristãs com seus valores fundamentais que dão sentido ao mundo.
[2] Freud influencia profundamente essa nova forma de encarar o sujeito colocando em questão as condições da inconsciência como motor para tomada de atitudes e comportamentos, trazendo à tona um lugar dentro da psique humana até então desconhecido. 






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Quem é você de fato?


Você ouve e lê: alguns, somente.
Não permite a possibilidade da concordância ou discordância entre nós. Pois não reescrevo o que escrevem os grandes, os afamados. Não compartilho de seu gosto literário, intelectual e artístico, único e seletivo! Não sou aquela que faz gosto em reverberar as vozes que se apresentam originais mas continuam incansavelmente ecoando sons tão similares.
Você não me lê seriamente. Sou um anônimo que se equivale ao inexistente no mundo aparente, no lugar do tempo do marcketing e do estardalhaço que faz uns grandes e outros pequenos. Por mais que você aprecie como poucos a possibilidade de novas interpretações, minha novidade é velha. É discrição e sutileza antigas no aparecer, que precisa utilizar-se dos meios contemporâneos para se fazer ver. Única possibilidade!
Ah... os meios contemporâneos! Estes que critica, mas despreza o fato de também você absorvê-los em seus interesses.
É, definitivamente! Você não me lê cuidadosamente, pois não pretendo reproduzir um mesmo saber, que por mais que não seja do senso comum – marginalização do intelecto –, é comum senso entre as grandes cabeças de um circuito fechado – pensante elite que não é o mesmo que elite pensante.
Na verdade, penso que você não deveria se preocupar tanto em ser, ao menos de vez em quando, “humano, demasiado humano”. Você tem autorização do cosmos para isso... mesmo que não a obtenha de seu ego. Você pode contrapor-se às expectativas e se entreter, quantas vezes e no tempo que quiser, com o mesmo que o mundo todo interage, com o mesmo ao que todo mundo reage. Isso não o fará menor. Por mais que os conterrâneos do lugar que você avidamente precisa e quer fazer parte achem um tanto... senso comum demais!
Quem é você afinal? O intelectual de hoje? É, é sim, um acadêmico, espelho do seu tempo mais do imagina! Se entende como um formador de opinião original, mas é na maioria das vezes, alguém opinando com a opinião dos outros. Grande parte de seu tempo – com os créditos que não acabam mais –, é utilizado em favor de um mundo “mais pensante”... que pensa não ignorar o ignorado, quando na verdade, para não ser o desabonado em questão, faz coro as mesmas ignorâncias. E assim... repetindo, para ser repetido, reproduzindo, para que te reproduzam e não se sinta fora do jogo o que, contraditoriamente, em suas produções intelectuais critica.
Pergunto: você seria sincero o suficiente consigo mesmo, para pensar que na mesma proporção dos alienados da mídia, há em qualidade, por mais que não em números, os alienados da restrita elite acadêmica e artística? Você me chamaria de louca por assim perguntar – de marxista sei que vai me rotular pelos termos já usados - se não seria loucura maior acreditar que alienação é todo o contrário prático às teorias que você faz questão de reproduzir, sem de fato observar com cuidado a possibilidade de execução na vida cotidiana, no lançar-se e estar no mundo que você também é? Evidentemente que a teorização e a arte parecem permear o patamar da abstração que tenta refletir o mundo. Mas não seria prudente pensar que um esforço para não parecer exatamente como o social execrável que redunda dos seus escritos ou fala, seria um tanto, deixe-me pensar... de pertinente a exemplar? Fico me perguntando se você seria sincero o suficiente consigo mesmo para afirmar que há uma igual predisposição de alienação vinculada ao grupo no qual você pode, voluntariamente, escolher estar, quando que comparado ao grande grupo da social apatia às suas habilidade teóricas, predisposições cognitivas e criticas? Você que pensa tão bem “a metafísica do real e a física do imaginário”, seria capaz de se encaixar e se auto-avaliar dentro do concreto habitual?
Sabe, amigo, vejo essas contradições nas universidades, nos congressos, na arte e na mídia que se coloca acima do trivial. Vejo as mesmas historinhas, os mesmos grupos se acreditando diferentes porém tão iguais nos discursos, por mais que amplamente sedutores na forma. A fórmula da forma é a mesma. A condição humana é a mesma: o homem crítico é o crítico de determinado grupo. É o homem crítico do tempo, perpassando o próprio tempo por sua condição tão humana, que não abarca a capacidade devida para apreender – diga-se em adição, viver – tudo o que nos faz seres no espaço-tempo. Infelizmente, este homem não é, e não pode ter autonomia, neutralidade crítica o suficiente para se ver, olhar para si dentro do mundo que ele próprio contradiz. 
Que coisa!
Obviamente que assim, também o sou...
Mas... então, por favor, não me venha com churumelas! Não sou melhor que o meu vizinho, nem você e melhor do que aquele que se avizinha à sua crença e aplaude sua grande performance! Não me venha com essa de que a sua minoria – os papéis sociais de hoje se inverteram, não que eu discorde do benefício proveniente dessa transformação – é melhor que a grande maioria.
Quem é você, meu amigo, senão apenas mais um, com um rótulo mais admirável em alguns circuitos restritos? É homem que pensa mais, logo existe mais? Você não é menos humano que qualquer um que transita por entre locais que possivelmente, nunca passará. Acorde para sua existência tão significativa e pouco significante, como a de qualquer um que despreza. Você não é tão diferente ou especial quanto imagina!
Sabe! Relendo esse texto, percebi que as linhas e entrelinhas servem também aos religiosos, que se dizem autoridades detentoras da grande verdade! Percebi ainda que se encaixa perfeitamente aos políticos e empresários que usam e abusam de sua pobre retórica, muito bem aplicada. Acredito que caiba ainda, para todos os que se voluntariam a se relacionar conosco. Ou mesmo aqueles com quem temos que involuntariamente, conviver.
Poxa, que constatação óbvia! Como somos todos diferentes, e ao mesmo tempo tão iguais, em meio às demandas do tempo de nossas vivências, não e mesmo?!


Texto: Luciane Trevisan Leal

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Artigo: O Descontrole da Técnica e da Vontade


Por mais que nos encontremos envolvidos por ela, dependentes dela e aparentemente gratos por sua condição de nossa morada e provedora de nossas possibilidades de existência, parece que as escolhas da natureza promovem também um incômodo que insiste transitar por entre uma relação que acredito, todos concordem, deveria ser harmônica. Homem e natureza, personagens separados na contemporaneidade, têm certa dificuldade de interagir! Parece haver uma confusão, uma inconformidade nos papéis que cada um deles deve encenar no palco do espaço-tempo que em sua tessitura acomoda a existência.
A questão que nos salta e mobiliza a filosofia da ciência, absorvendo obviamente discussões éticas, não poderia deixar de voltar sua atenção para o que se refere ao controle ou descontrole da técnica pelo homem. Até onde temos o direito de nos apropriar das leis naturais para interferir na ordem natural das coisas? Complementaria a questão ressaltando: temos o direito e (ou), habilidade suficientes para ocupar aleatoriamente o lugar da divindade que matamos? O que mais podemos inventar e destruir?
Não tendo como deixar de dar o devido crédito ao legado cartesiano, o homem mais uma vez é o princípio da dúvida e o fim de qualquer proposição.
A história da ciência nos conta que é natural do homem o encanto pelo conhecimento e o espanto que causa a dúvida. Mas parece que nos primórdios nossa busca procurava se concentrar apenas – o que já é muito –, na compreensão do funcionamento das coisas. O que se desenrola no alvorecer da sociedade moderna é uma mudança de nossas demandas, estas que agora tendem a ultrapassar o desejo pelo conhecimento das coisas se rendendo ao ensejo do controle delas próprias. Porém, juntamente com a vontade do controle e certeza sobre tudo, caminha ainda a duvida sobre o próprio controle que se deseja. Onde e quando deve ser desenhada a linha que interrompe e solicita a reconfiguração de nossas vontades e desejos? Esse espaço limítrofe deve existir?
Bem da verdade, a evolução da ciência parece para muitos acompanhada da dissolução do homem, do humano, em alguma coisa que talvez nem a ficção científica seja capaz de pensar. Mas será que o desenvolvimento da técnica na atualidade, em termos de obtenção de realização dos desejos humanos, difere tanto de nossos antepassados? 


O Acontecer do Dasein

Martin Heidegger, filósofo contemporâneo, afirma que a relação do homem com a totalidade do mundo é essencialmente técnica. Mas o que é esse mundo e como se dá a relação do homem com ele?  O que o filósofo entende por totalidade do mundo?
Martin Heidegger foi leitor dos pensamentos de Husserl, que focava sua reflexão numa discussão sobre as filosofias da consciência trazendo à tona a analítica sobre a existência dos fenômenos. O que com Husserl se quer discutir é como os entes se mostram, existem e são, como os entes se apresentam à consciência. A fenomenologia, bastante presente no pensamento contemporâneo, é definida a partir destas bases. Mas para Heidegger, o modo de ser de cada coisa difere, na forma com que cada uma delas se apresenta à nossa consciência. E estas formas variadas de ser de cada coisa aparecem, se mostram ou se ocultam, a um determinado ente: o homem.
Heidegger constrói sua filosofia a partir de uma proposta de reabertura da pergunta do sentido do ser, que como defende o filósofo, fora questão abandonada pela tradição filosófica. E para que haja de fato a reabertura dessa pergunta há que se indagar sobre o modo de ser do ente que faz a pergunta pelo ser, já que é somente nele que a questão se formula.
O ente que pergunta pelo ser, para o filósofo, não é somente uma consciência, mas uma consciência do mundo, no mundo. É o mundo sobre o qual ele pensa e age, com o qual ele interage. Esse ente é e está no mundo, uma rede de significados que dá a ele sua totalidade. Tudo aquilo que o ente experimenta, que abriga o ente, o conjunto de suas vivências, é o seu modo de se perceber, o seu lançar-se no mundo. A essa totalidade Heidegger chama Dasein[1].
O Dasein nomeia o mundo e se percebe como ente lançado nesse mundo que já existe, que detém seus valores construídos, que tem história. Dá significado ao mundo na medida em que acontece nele. Compreende, conceitua, interage com o mundo, essa grande reunião de entes. Vivencia a reflexividade, o processo interativo com o mundo, criando novos significados para ele, constantemente. Acontece no mundo e faz o mundo acontecer. É homem no mundo e mundo no homem, é acontecimento do ser-aí.
Essa inovação na fenomenologia leva a um afastamento das filosofias da consciência[2] para no lugar ressurgir a reabertura da pergunta pelo sentido do ser que substitui a ideia de consciência pela ideia de Dasein. Para Heidegger, se já não bastassem as razões metodológicas para a reabertura da pergunta, para além delas o filósofo acreditava ser a reformulação da questão do sentido do ser a mais proeminente e necessária, já que o que nos define como homem é o ser. A questão do sentido do ser para o filósofo carrega assim, uma dignidade em si mesma.
Levando em conta a afirmação de Heidegger sobre um mundo que se torna cada vez mais técnico, se fizermos uma ponte ligando as discussões éticas que envolvem o desenvolvimento das tecnologias atômicas e da biogenia[3] por exemplo, parece haver uma necessidade implícita de que a pergunta pelo o sentido do ser retorne com toda sua força.


Patrimônio da Humanidade: Razão e vontade

“A Natureza torna-se um gigantesco reservatório, uma fonte de energia para a técnica e para a indústria” (J. Habermas)

As escolhas da natureza, tanto para o que nos parece bom quanto para o que nos parece ruim, durante bilhões de anos proporcionaram ao homem uma estabilidade, uma regularidade que permitiu nossa simbiose com o entorno, uma troca a partir da qual nos compreendemos, criamos nossos códigos morais e construímos nossa história. Porém a natureza que nos permite ser, também nos condena à morte e nos lembra a todo o tempo o quanto somos vulneráveis. O desespero do homem, nossa angústia em face da possibilidade do desaparecimento, nos impele a necessidade de controlar aquilo que pode nos destruir. Seria somente uma luta pela preservação, biológica, instintiva, própria de todos os animais, porém, carregamos o que nos difere das outras espécies. Uma vantagem evolutiva, uma característica que nos capacita construir... e destruir: a racionalidade.
A faculdade da razão é a especificidade que nos permite um questionamento que extrapola os limites da possibilidade de desaparecimento de nossa espécie. A razão permite constatar e questionar uma verdade perturbadora, que é a certeza do desaparecimento como indivíduo no espaço-tempo, como sujeito que pensa, que existe, que sabe que é. O Dasein que constantemente re-significa o mundo, refaz então seus códigos morais e éticos e os reinventa de modo que possa se permitir buscar na natureza que quer proteger – mas da qual também se protege –, a pedra filosofal[4]. A racionalidade que nos faz Dasein, pretende substituir, criar o mundo de uma outra maneira, em prol de nossa permanência, em prol da facilitação da nossa preservação como espécie, mas para além disso, talvez tenha um objetivo realmente ousado que possa garantir o maior desejo humano: a eternidade de nossa existência subjetiva.



“(...) não podemos excluir o fato de que o conhecimento de uma programação eugênica do próprio patrimônio hereditário limita a configuração autônoma da vida do indivíduo e mina as relações fundamentalmente simétricas entre pessoas livres e iguais.”.
(J. Habermas)

Parece que esse desejo de permanecer acontecendo, existindo, sendo ele exteriorizado ou latente na condição humana, esbarra na totalidade do que somos, esta que ultrapassa as fronteiras da biologia, para fazer morada em edifícios cujos alicerces são construídos nas bases da cultura. Nossos códigos morais e éticos são também característica de nossa condição humana como salientado por Habermas: “A manipulação dos genes toca em questões relativas à identidade da espécie, sendo que a autocompreensão do homem enquanto ser da espécie, também compõe o contexto em que se inscrevem nossas representações do direito e da moral” (J. Habermas). Porém, a racionalidade cartesiana da qual somos herdeiros, que torna possível a compreensão de nossa condição humana dentro destes códigos, é também responsável por nos mostrar que somos muito pouco autônomos na escolha do que nos define como sujeito. Por mais únicos que sejamos, somos relegados às demandas de nosso tempo, o real mentor de nossa identidade ornamentada pela razão.   
O mundo estar se tornando extremamente técnico parece mais uma etapa de uma linha tênue de transição histórica[5] que carrega sempre com ela as transformações com as quais ainda não nos identificamos, justamente porque transitamos entre limites pouco específicos nos quais ainda não nos compreendemos acontecendo. Como Heidegger ressalta, somos um acontecimento, um ser aí, homem e mundo no tempo de agora. 
Nossas visões de mundo são embasadas em identidades e juízo da realidade construídas na história do ser acontecendo. Assim se forjam nossas dúvidas em relação à nossa própria apreciação do real como também aos limites que nos devemos impor. As transformações que vivenciamos e as necessidades que construímos em virtude delas são fato de nossa existência, do acontecimento do mundo, do vir a ser que somos e ao qual estamos sujeitos.


A Vontade que acontece


Levando-se em conta o Dasein que somos e acontece, a realidade atual não aparenta ser mais assustadora que antes do desenvolvimento da física e da tecnologia em meados do séc. XX, mas parece sim ser, nada mais nada menos, que uma continuidade do permanente objetivo de colocar em prática os desejos e vontades humanas. Parece razoável pensar que não se deve fixar o olhar nas diferenças das técnicas dos gregos antigos e das técnicas atômicas atuais, a nanotecnologia e a biogenética ou biotecnologia, mas sim na única coisa que parece imutável na rede de significados que é o homem no mundo: a vontade humana, motor de construção e destruição. O que sugere a história da evolução tecnológica, é que um processo de desenvolvimento que pode parecer linear a princípio, faz na verdade emergir uma ruptura com a forma com que lidamos e interagimos com a natureza, talvez significando uma tentativa de substituição da natureza como ela é, para uma outra natureza, inventada, no intuito de que permaneça sob controle, sob o domínio de nossa vontade.
Como afirma Heideigger “(...) propriamente estranho não é que o mundo esteja se tornando completamente técnico. Mais estranho ainda, é que não estamos preparados para essa transformação” (M. Heiddeger). Não seria o esquecimento do sentido do ser a razão deste despreparo? Talvez não seja inviável imaginar que a pergunta relativa ao ser deva reaparecer com força de modo que com ela possamos melhor nos compreender nesse tempo e por conseqüência entender o porquê de nossa entrega ao domínio e desmandos da técnica? De forma concomitante à pergunta do sentido do ser poderemos questionar de fato: para quê tudo isso?!
A vida proveniente de uma decisão eugênica não parece ser menos vida que aquela contida em um embrião onde se pretende excluir determinado composto multicelular. Surpreende a idéia de que deixaremos de ser iguais ou que perderemos nossa identidade, quando talvez o que continuará prevalecendo será a indubitável constatação de que alguns são “mais iguais que outros” e de que nossa identidade é uma construção de nosso tempo. Surpreende também que o pensamento contemporâneo ainda se choque com todas as interferências do homem que parece ter como premissa a tão repetida frase “brincar de Deus”. Parece de fato não haver surpresa nenhuma nos desejos insanos de domínio sobre a natureza, já que eles sempre pairaram lado a lado ao nosso terror pela possibilidade – ou certeza – que a não existência promove. Parece não haver porque mensurar um passado glorioso de desenvolvimento científico e o presente de uma ciência que destruirá a natureza humana. No final, o que seria mesmo a natureza humana?
A pergunta que coloca em foco os limites do desenvolvimento científico parece em verdade necessitar uma nova formulação que ultrapasse a questão da técnica em si. Porque precisamos disso tudo? Precisamos reformular essa pergunta, com base numa resposta que já temos: o medo de deixar de ser, de deixar de acontecer. Seria a resposta que temos a razão de reformulação da pergunta que nos devemos.


Reformulação da Pergunta

Parece não haver certo ou errado, enquanto que nos achamos como sujeitos no tempo... e ao tempo! Parece não existir a possibilidade de uma regra em absoluto, verdadeira, ou uma ética universal – por mais necessária que ela se faça. O que parece haver são apenas formulações de exigências comuns que vigoram no agora, e constatações, por certo cada vez mais velozes, de leis naturais passíveis de modificação porque vinculadas ao tempo de nossas necessidades, diga-se, de nossas inventivas possibilidades em meio ao acaso que somos. O mundo pós-contemporâneo, pode parecer absurdo dizer, não parece tão distante do tempo de nossos antepassados que deram o pontapé para todo o conhecimento que temos hoje. Por mais que seja óbvia a diferença, para não parecer tão absurda a comparação, me explico: a técnica de que nos orgulhamos, e da qual ao mesmo tempo nos retratamos, parece ser tão somente, mais uma característica de nossa condição humana que deixa a vontade invadir a racionalidade tão festejada. A racionalidade que não nos conteve, ou nos trouxe a um lugar melhor que o de nossos antepassados místicos. A defesa de uma ciência racional em contraposição à qualquer verdade mística, parece ser nada mais do que uma ciência permeada pelas vontades... muito humanas.
O homem se compreende no tempo e por mais que queiramos deter o controle de tudo que nos envolve, o tempo não somos capazes – ao menos até onde se sabe –, de controlar. O tempo dita as regras de nossa existência, conduz nossas decisões e nos molda de acordo com sua prerrogativa. Desenvolvemos nossa ciência no tempo de determinada apreciação do real, de determinada necessidade de nos compreender em meio ao entorno, mas parece que quando forjamos nossa crítica ainda insistimos em não fazer conta de que somos constituídos pelo tempo do homem de agora, o que não poderia deixar de abarcar, o homem crítico de agora. O Dasein constituído e constituinte.
A questão que deveria estar no cerne do entendimento sobre a necessidade de limites ao desenvolvimento científico, parece estar no complemento da obra de M. Heidegger cuja descontinuidade reflete nossa incapacidade de lidar com o limite que para nós é certamente o mais significativo e por isso mesmo o motor de todas nossas conquistas e percalços do ser aí: a possibilidade, ou certeza, da não existência.
Retornemos à raiz de toda a história do conhecimento no ocidente. Esmiucemos a história da filosofia desde os pré-socráticos até agora e façamos uma varredura no HD de nossa história tentando decodificar o ser codificado na tradição filosófica. Ele está ali, está aqui. Não escapa das possibilidades e limites que estão no tempo de sua expressão.
A pergunta que nos devemos é anterior à ciência que só faz responder às nossas necessidades de permanecer no lugar que conhecemos. Quem somos e por quê? A pergunta que insiste querer permanecer, de onde insurge todos os desdobramentos.



[1] Dasein, uma abertura às possibilidades, estar lançado na existência. A própria existência que acontece, homem e mundo que não se dissociam. Ser-aí.
[2] Difere das filosofias da consciência de Kant, Hegel, Shopenhauer e Hurssel, na tradição filosófica. Consciência e ser não são a mesma coisa, já que o ser se apresenta à minha consciência assim como ela também se apresenta a mim
[3] Não serão apresentados argumentos relativas aos aspectos econômicos do mercado do mapeamento genético, o que por si só, já renderia uma ampla formulação discursiva.
[4] O mesmo que um elixir da longa vida, para os alquimistas.
[5] A idéia aqui não é fazer alusão a esta transição no tempo como parte de um processo de evolução (desenvolvimento, progresso), como na perspectiva hegeliana: história como uma linha continua com um ponto de chegada, onde o auge seria o progresso e concomitantemente, o fim da história.


Artigo: Luciane Trevisan Leal

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Morte


É Sombrio lugar que desconheço
Acontece na dúvida,
na aurora de um limite denso

Inóspita, nada ali é germinado
Incógnita, permanece solo calado
Inverno eterno, tempo seco

Perfura a vida com navalha
Se aloca no peito e por dentro se espalha
Dor que causa, paz que ás vezes calha

É interruptor da alma que se apaga
Inerte deixa o corpo que nada afaga
Se espalha pelo mundo feito praga

A ela não devo respeito
Não me interessa lugar que não é do meu preito
Ignoro que é única verdade... e está feito

Já que cega uma vista para outra deixar ver
Extingue a chama que deixa de acontecer
Não terá meu apreço, o que me causa não mereço

Caio no mundo e finjo que a desconheço
Me aventuro nos meus abusos, reconheço
E que serei dela simplesmente... esqueço

Texto: Luciane Trevisan Leal

(Com registro de propriedade intelectual)

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Sendo

Prosa Filosófica inspirada na obra “O Ser e o Tempo” (M. Heidegger)
Texto: Luciane Trevisan Leal


Não sou a dona de mim, mas parte de uma totalidade das coisas, que me divide, e ao mesmo tempo unifica. 
Parte da existência que faz meu ser absoluto desconhecido, oculto, e meu vir-a-ser no tempo o único possível de revelar-se.
Meu movimento no tempo carrega a parte de meu precedente vir-a-ser – do passado –, e meu cedente vir-a-ser – do presente.
É ser absoluto no ser-aqui, presente no exato instante da existência,
que já não é mais o passado, a sentença que acabou de ser escrita.
Seja ele hoje meu ser possível, porque fora outrora o vir-a-ser do passado,
se realiza, acontece, somente na instância de tempo do agora.
São duas feições de mim, unas, inseparáveis.
Minha existência: o mundo imerso no homem de agora, e o homem imerso no mundo imediato.
Meu ser-homem, meu ser-mundo!
Há uma feição minha que não é só minha, mas do mundo circunstancial, instantâneo: o lugar do acontecer da história do ser.
Lugar que é familiaridade, habitat. Um espaço-tempo no qual fui jogada… sem escolha!
É mundo que acontece, aparece… é abertura.
Minha outra feição é a verdade da verdade, precisão nunca vista, imprecisão prevista.
Nada familiar, não factível, nada além do que não é cotidiano.
È indeterminada, oculta no lugar do meu acontecer.
Vem-sendo comigo, mas se cala, não se mostra.
Se retira enfraquecida diante da força da familiaridade do mundo... que também sou eu!
Se abstêm de mostrar-se, não por escolha, mas por ser que o é: o avesso da familiaridade.
É dela que nasce minha angústia, da sutil aparição da ausência de meu habitat costumeiro.
Essa revelação, a presença da ausência do familiar,é tênue. Quase tão imperceptível quanto partículas sub-atômicas.
É uma instância de tempo que de tão pequena, não se contabiliza.
Aparece na quebra do evidente, na ruptura da lógica costumeira, em um repente.
Se mostra no diferente, no estranho que sou e estou.
É imersão absoluta no mundo e em mim: o Dasein constituído e constituinte.
Do meu vir-a-ser que acontece e angustia, meu futuro herdará a lógica edificada.
Será constâncias de acasos ou ainda algumas construções conscientes, mas sempre meras ou grandes... possibilidades.
Sempre possibilidades, que se alinham à minha prosa, e que assumo na direção da extinção das mesmas.
Pois o fim das minhas possibilidades, a plenitude do meu ser, é a finalização do meu ser-aqui.
Meu vir-a-ser, minhas duas faces, de clareza e ocultação, que vão de encontro ao nada!
Meu fim, minha morte, meu acabar de acontecer...
Ao menos no tempo que é do meu conhecimento.

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Visita


Alguém aparece frequentemente
E insiste permanecer um milésimo de segundo
Seu adeus nessa curta passagem de tão irresponsável
Transtorna, confunde, deixa inconsolável
Pois antes de sua saída, o tempo retorna
Deixando fissuras em meu universo presente
Memórias de convicções passadas,
Nunca esquecidas, acredita-se superadas, amadurecidas

A visita, sem nenhuma força contrária
Reafirma a suspensão da segurança pregressa
Na forma de nostalgia de um tempo
em que a dúvida não era uma regra
Desarranja o tempo de hoje
A quase arte da vida que pode ser percebida
por mais que não completamente vivida
Nem por isso menos segura e querida

O estrago que faz é doença da alma
Pois remonta ao não mais existente
Que por isso mesmo não acalma
Só faz confrontar o intento de negar
Faz sentir o repleto de uma outra
De um tempo que faz alusão à verdades
nunca negadas, nunca comparadas
Simplesmente prontas e acabadas

A visita traz à tona uma certa inocência
Na figura do que se tinha por decência 
Na ideia do sagrado adorado, amado
que pela mentira da vida do homem fora estragado
Por mim negado, desacreditado
O sagrado que vem para insistir interpor-se aos meus passos
Na forma de uma construção humana intolerante e inquisitiva
Que quer se fazer presente, convincente, requerente

Essa bagunça no meu arrumadinho incerto
Que parece ser o que tenho de certo
Causa confusão que me atormenta e não movimenta
Me embaralha o querer e o que de fato poder
É A visita da outra tão frequente
Que se mistura ao eu de hoje e constrói um outro ausente
Que se confunde ao decidir e no como agir
Me tirando da ignorância exequível, fazendo querer uma verdade impossível


Texto: Luciane Trevisan Leal

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O Verdadeiro sobre a Verdade


O homem só o é no mundo
O mundo só o é no homem
Verdades são do mundo
Verdades são dos homens

O Mundo cria seus homens
Homens criam seu mundo
O mundo desvela sua verdade
A verdade desvelada revela o homem

Revelada a verdade do homem
Reafirmada é a verdade do mundo
Não há mundo sem a verdade do homem
Não há homem sem a verdade do mundo

O homem não é o que parece, mas permanece
O mundo só é o que ao homem lhe parece, e permanece
Mas a verdade que ao homem aparece
é o que de fato perece

Texto: Luciane Trevisan Leal


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O Massacre de Realengo e nossos Monstros






Parece não haver mesmo palavras para definir a mistura de sensações com a última aberração que assistimos insistentemente pelos meios de comunicação nos últimos dias: o massacre na escola de Realengo, no Rio de Janeiro. Raiva, indignação, tristeza, mas talvez a maior sensação e mais horrível de todas: medo! Como compreender a verdade gritante que a qualquer momento uma mente ensandecida possa atravessar o seu caminho, o meu caminho, a vida das pessoas que amamos, a vida de crianças. Meu Deus, crianças! O que leva um rapaz jovem, com a vida toda pela frente, a engendrar, de forma calculada e maquiavélica, a execução em série de crianças?
Quando vivências sociais infelizes vêm de encontro à estruturas mentais desnorteadas, o saldo é tristeza e perplexidade. Pessoas capazes de tamanha atrocidade são perturbadas mentalmente certamente. Mas não se pode deixar de salientar que mesmo psicopatias são alimentadas e legitimadas por uma doença que não é somente individual, mas social: covardia. Uma incapacidade de enfrentar a vida mas com grande habilidade para colocar no buraco da alma qualquer discurso fascista e egoísta que preencha o vazio e ajude a inflar o ego enfermo.
Mentes alucinadas e ensimesmadas quando apresentadas à discursos fundamentalistas e preconceituosos encontram nessas falas a “salvação” para o buraco individual e social em que se encontram, buraco este, na maioria das vezes, cavado por outras mentes, não menos adoecidas pelo meio em que vivem ou criação, mas talvez biologicamente mais adaptadas a ele, e por isso consideradas mais “fortes” ou racionais. Estas últimas, que deveriam desencorajar certos discursos que perturbam o senso crítico – ainda mais nos casos de quem tem pouco ou nenhum –, ao contrário, nutrem as turbas de carentes incapazes de conviver com suas limitações e as dos outros, com os desapontamentos e rejeições vexatórias nas relações, com as frustrações que qualquer um que está no mundo está sujeito a sofrer.
Ao menos a parte conhecida da história de Welington Menezes, é a mesma de muitos, inclusive de conhecidos meus dos quais já tive e tenho medo de determinadas atitudes. Pessoas introvertidas (não falo da timidez natural), isoladas, que encontram na solidão e fuga das vivências frustrantes, uma forma de não ter de lidar com o limite do outro que não podem compreender ou controlar. Pessoas que entendem não estar de posse absoluta das próprias emoções que emanam do contato com o outro, este ser estranho, que poucas vezes estará na mesma sintonia, e por isso mesmo perturbará a ordem de seu próprio descontrole habitual.
O perigo é que pessoas assim, que vão se isolando cada vez mais e mais em seu mundinho de reclusão, vão pouco a pouco inventando uma realidade própria. Percebem o mundo externo pelos sentidos como qualquer outra, o organizam à sua maneira como qualquer pessoa, porém, escrevem suas representações com base na leitura de uma realidade distorcida. E quando esse mundo externo ao seu isolamento apresenta um discurso que os transporte de alguma forma para fora de sua reclusão, incluindo-os de alguma maneira no lugar em que queriam estar e serem aceitos, tapando assim o buraco de sua alma e gerando os símbolos que necessitam para dar sentido ao que vêm e não compreendem ou controlam, eles se entregam de cabeça àquela apreciação e razão para existência, no meio que acreditam agora ser possível pertencer. Erguem ao patamar da adoração os símbolos que dão significado àquilo que vêm. Identificam neles o que os agrega, o que lhes traz um significado qualquer de pertencimento, mesmo que seja pertencimento no seio do repugnante, da covardia.
Os símbolos que vão sendo incutidos, que criam essa sensação de pertencimento a alguma coisa, que todos nós procuramos – símbolos que doentes mentais também buscam –, são construídos pelos discursos correntes, de toda a sociedade, são forjados pelas nossas crenças e certezas. Se nossas crenças e certezas unem, facilitam a convivência, agregam valores de tolerância e amor, contribuímos na constituição de crianças, futuros adultos, comprometidos com uma convivência social pacífica. Mas se ao contrário nossas crenças segregam, enfatizam a diferença como alguma coisa a ser intolerável ou feia, construímos esse tipo de monstro, que pode ser doente mental ou não.
Welington Menezes certamente tinha problemas mentais, até porque matar criancinhas com a frieza de uma pedra ultrapassa a qualidade da perversão de um neurótico apenas. Porém, não é a doença mental que torna alguém monstruoso. Todos nós, com nossas crenças e verdades banhadas pela nossa covardia ao encarar o diferente de nós – e porque não dizer, até o nosso diferente íntimo –, é que construímos nossos monstros exteriores… e também os interiores.

Texto: Luciane Trevisan Leal

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A Imagem



Essa imagem que já não te apraz, vai que se desfaz?
Num milésimo de tempo… não se recupera mais
Essa imagem de si que falo, que pouco te participa de fato,
Certamente para os outros, te dignifica no ato


Nela tu não és por inteiro
mas para o mundo é o que há de verdadeiro.
Desfazer-te dela agora é grande erro,
é através dela que a ti consideram com esmero.


Dada à morte, pode tornar-te refém… da má sorte
Já que ela é teu suporte, teu passaporte.
Por mais que a tenha edificado num engano primeiro
Que te faz agora revogado, anulado, quase que por inteiro.


Conserto não há, o desastre já está
Da ilusão que erigiu esconda o desencanto que emergiu
É o melhor a fazer, conveniente aos outros parecer
Assim ninguém lê, o que em si, nem você direito vê


Texto: Luciane Trevisan Leal
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